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O Mundo Sombrio de Sabrina

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O Mundo Sombrio de Sabrina” (Chilling adventures of Sabrina) se consolidou como uma das melhores séries voltadas ao público jovem adulto dos últimos anos, e se manteve na mesma crescente com a chegada de seu terceiro ano. Isso porque sua linguagem, apesar de fictícia, fala direta e indiretamente com o espectador, fazendo analogias das vivências reais de que acompanha a série original da Netflix, abordando temas recorrentes como empoderamento feminino, a queda do patriarcado, machismo, amizade e, claro, romance.

A terceira parte da grande história que ronda a vida de Sabrina Spellman, sua família e amigos, retoma às problemáticas que ficaram abertas, como a salvação de Nick do inferno, a perseguição ao Padre Blackwood pelo mundo e a reestruturação da Igreja da Noite. Mas, com a base da 2ª temporada, o que parecia estar bem definido como clímax foi resolvido ainda nos primeiros episódios para, depois, abrir espaço a novos e poderosos inimigos.

Enquanto Sabrina, interpretada de forma assertiva por Kierna Shipka, tenta assumir seu lugar ao trono no inferno, suas tias, primo e até mesmo seus amigos humanos tentam salvar a cidade de Greendale de um grupo de feiticeiros pagãos. E como era de se esperar, problemas de relacionamento adolescente envolvendo o triângulo amoroso Sabrina, Nick (Gavin Leatherwood) e Harvey (Ross Lynch) são recorrentes, mesmo com o resultado final pendendo sempre para o segundo – infelizmente, já que existe mais química entre Kierna e Gavin.

Mas, o que tornou a história ainda mais intrigante foi como as consequências afetaram diretamente cada personagem; se no primeiro ato Lilith foi a antagonista e no segundo foi o Lorde das Trevas, agora, eles ficam de lado para que Sabrina possa explorar mais sua relação com o inferno e os habitantes que lá vivem, que pretendem usurpar o seu lugar, bem como os pagãos, que querem dominar a cidade as custas das pessoas que lá vivem para, assim, despertar um Deus antigo e dominarem o mundo.

E é em meio a uma catarse que Zelda (Miranda Otto) desperta no público curiosidade pela sua evolução, deixando de ser a tia ranzinza que esconde seus sentimentos, vivendo cegamente para adorar Lúcifer e seguir as regras da Igreja da Noite, para se tornar o alicerce de sua família e de seu coven e de descobrir novas fontes de poderes, mesmo que isso signifique deixar de lado tudo aquilo para o que viveu até ali.

Cada uma das edições anteriores girou em torno de um cenário: a 1ª parte conta a história de Sabrina e seu relacionamento com seus amigos humanos; a 2ª mostra, de fato,  em seu mergulho nos estudos das artes das trevas e na Igreja da Noite, assumindo seu lado sombrio; já o terceiro foca na sua relação com o inferno. Mas, é nesse último que há mais fragilidade no enredo, que se atropela diversas vezes ao explorar muitos personagens de forma superficial – novamente, os humanos acabam ficando de lado…

E com os episódios finais, envoltos em um ritmo frenético, que há uma resolução inesperada – à la De Volta Para o Futuro – que promete entrelaçar os cenários das três partes anteriores para possivelmente encerrar as aventuras da bruxa adolescente. Enquanto isso, só nos resta esperar que justiça seja feita ao gato Salem para que ele finalmente possa reverberar suas frases cômicas e acidas à família Spellman.

Manter a coerência de uma série para sua segunda parte não é uma tarefa fácil, principalmente quando ela ganhou uma grande quantidade de fãs em tão pouco tempo. Felizmente todas as expectativas em torno de “O Mundo Sombrio de Sabrina 2ª Parte” foram atendidas positivamente.

Enquanto a primeira parte apresentada às vésperas do Halloween de 2018 mostrava Sabrina (Kiernan Shipka) aprendendo a lidar com seus poderes enquanto tenta levar uma vida mortal normal, a segunda acaba subvertendo a situação: conforme a deixa da season finale, ela está com seu lado sombrio mais evidente enquanto apenas transita na sua antiga rotina mortal.

A mudança de Sabrina vai além da cor do seu cabelo ou a tonalidade de seu novo batom; Kiernan Shipka conseguiu criar camadas para personagem a ponto de diferenciar os dois momentos de sua vida, com personalidades distintas, e ainda assim manter características como rebeldia, coragem e amor pelos entes queridos presente em ambos. Uma das cenas iniciais, por exemplo, mostra Sabrina trocando de roupa com mágica – fazendo uma divertida referência a série que apresentou a bruxa nos anos 90 “Sabrina: Aprendiz de Feiticeira” – e ouvindo rock’n roll no último volume, gerando estranhamento para suas tias e primo e nos mostrando como aos poucos ela está mudando.

A fotografia escura e a trilha sonora tenebrosa mantém o tom soturno que se faz presente em todos os episódios, principalmente neste momento que Sabrina está se aprofundando no conhecimento das artes das trevas e de seus poderes.  E apesar do universo de O Mundo Sombrio de Sabrina ser fictício, ele trata de temas reais como desconstrução da família tradicional,  bullying,  crenças cegas a qualquer tipo de religião, machismo e feminismo como pano de fundo. Nenhum dos temas levantados aparece de forma gratuita, eles são pincelados na trama de forma sutil ou como um estranho gosto amargo na boca – vide os 5 dogmas que Blackwood deseja implementar na Igreja da Noite.

Todos os personagens ganharam mais tempo de tela; infelizmente no processo algumas histórias se tornam desinteressantes, principalmente no lado dos humanos, em especial do Harvey (Ross Lynch). Já do lado místico é Mary Wardwell/Lilith (Michelle Gomez) que não consegue prender a atenção. Parte do problema está na construção da personagem de Michelle, que não traz o ar de perversidade e perigo real que Lilith representa, se mantendo frígida em suas expressões na maior parte do tempo.

O destaque da série fica para a família Spellman, em especial para as tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis). Enquanto Zelda está focada em restabelecer o nome da família e ganhar poder, Hilda mostra que não é tão inofensiva quanto parece. Outra adição interessante na vida de Sabrina é Nick (Gavin Leatherwood), que além de par romântico e ter mais química com ela que seu antigo namorado, a ajuda em diversos momentos importantes durante sua caminhada na escuridão.

O Mundo Sombrio de Sabrina 2ª Parte se mantem coeso com uma continuidade excelente. O desfecho aparece como uma solução provisória para toda a problemática que a série apresentou até o momento. As pontas soltas deixadas também indicam uma continuação interessante para a história da bruxa adolescente.

O Mundo Sombrio de Sabrina -Parte 2
Foto: Reprodução