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O Mundo Sombrio de Sabrina” (Chilling adventures of Sabrina) se consolidou como uma das melhores séries voltadas ao público jovem adulto dos últimos anos, e se manteve na mesma crescente com a chegada de seu terceiro ano. Isso porque sua linguagem, apesar de fictícia, fala direta e indiretamente com o espectador, fazendo analogias das vivências reais de que acompanha a série original da Netflix, abordando temas recorrentes como empoderamento feminino, a queda do patriarcado, machismo, amizade e, claro, romance.

A terceira parte da grande história que ronda a vida de Sabrina Spellman, sua família e amigos, retoma às problemáticas que ficaram abertas, como a salvação de Nick do inferno, a perseguição ao Padre Blackwood pelo mundo e a reestruturação da Igreja da Noite. Mas, com a base da 2ª temporada, o que parecia estar bem definido como clímax foi resolvido ainda nos primeiros episódios para, depois, abrir espaço a novos e poderosos inimigos.

Enquanto Sabrina, interpretada de forma assertiva por Kierna Shipka, tenta assumir seu lugar ao trono no inferno, suas tias, primo e até mesmo seus amigos humanos tentam salvar a cidade de Greendale de um grupo de feiticeiros pagãos. E como era de se esperar, problemas de relacionamento adolescente envolvendo o triângulo amoroso Sabrina, Nick (Gavin Leatherwood) e Harvey (Ross Lynch) são recorrentes, mesmo com o resultado final pendendo sempre para o segundo – infelizmente, já que existe mais química entre Kierna e Gavin.

Mas, o que tornou a história ainda mais intrigante foi como as consequências afetaram diretamente cada personagem; se no primeiro ato Lilith foi a antagonista e no segundo foi o Lorde das Trevas, agora, eles ficam de lado para que Sabrina possa explorar mais sua relação com o inferno e os habitantes que lá vivem, que pretendem usurpar o seu lugar, bem como os pagãos, que querem dominar a cidade as custas das pessoas que lá vivem para, assim, despertar um Deus antigo e dominarem o mundo.

E é em meio a uma catarse que Zelda (Miranda Otto) desperta no público curiosidade pela sua evolução, deixando de ser a tia ranzinza que esconde seus sentimentos, vivendo cegamente para adorar Lúcifer e seguir as regras da Igreja da Noite, para se tornar o alicerce de sua família e de seu coven e de descobrir novas fontes de poderes, mesmo que isso signifique deixar de lado tudo aquilo para o que viveu até ali.

Cada uma das edições anteriores girou em torno de um cenário: a 1ª parte conta a história de Sabrina e seu relacionamento com seus amigos humanos; a 2ª mostra, de fato,  em seu mergulho nos estudos das artes das trevas e na Igreja da Noite, assumindo seu lado sombrio; já o terceiro foca na sua relação com o inferno. Mas, é nesse último que há mais fragilidade no enredo, que se atropela diversas vezes ao explorar muitos personagens de forma superficial – novamente, os humanos acabam ficando de lado…

E com os episódios finais, envoltos em um ritmo frenético, que há uma resolução inesperada – à la De Volta Para o Futuro – que promete entrelaçar os cenários das três partes anteriores para possivelmente encerrar as aventuras da bruxa adolescente. Enquanto isso, só nos resta esperar que justiça seja feita ao gato Salem para que ele finalmente possa reverberar suas frases cômicas e acidas à família Spellman.

Esposa de Mentirinha (Just Go With It) trouxe Jennifer Aniston e Adam Sandler para um dos melhores filmes da extensa carreira de ambos na comédia. Por isso, não é para menos que a mais nova união da dupla, “Mistério no Mediterrâneo”, conseguiu o feito de ter a melhor estreia de um filme original da Netflix, em que em apenas 3 dias mais de 30 milhões de contas assistiram ao longa.

Nick Spitz (Sandler) é um policial que vem há tempos tentando se tornar um detetive, mas nunca obteve sucesso em passar nas avaliações para a mudança de cargo. Enganando sua esposa Audrey (Aniston), que acredita na sua promoção, ele cumpre a promessa e a leva para a lua de mel na Europa após 15 anos de casados. Durante o voo, ambos são convidados pelo milionário Charles Cavendish (Luke Evans) a viajarem no iate da sua família – uma proposta tão estranha quanto irrecusável.

A viagem parecia perfeita até ocorrer o assassinato do bilionário Malcolm Quince (Terence Stemp), tio de Cavendish, enquanto ele assinava o testamento deixando sua fortuna para sua namorada Suzi (Shioli Kutsuna), ex de seu sobrinho. A medida que as investigações começam, novos assassinatos vão acontecendo e o casal Spitz vai sendo incriminado.

A trama simples não promete ser nada além do que ela é: uma comédia estrelada por Adam Sandler! Quem conhece a longa carreira do ator sabe que muitas das suas piadas – completamente datadas – estão longe de agradar grande parte do público, principalmente em suas obras recentes. Entretanto, Mistério no Mediterrâneo é uma boa surpresa e entrega bons momentos.

Parte do sucesso que o filme possui está relacionado ao que o público já conhecia de interação entre a dupla principal. E todos os pontos necessários para que o filme seja envolvente estão lá: piadas engraçadas; piadas forçadas; perseguições; um mistério; e até mesmo um pequeno plot twist.

Adam Sandler não traz nada de novo ao compor seu personagem, infelizmente entregando mais do mesmo de piadas nonsenses, além de um timimg cômico pouco efetivo. Jennifer Aniston traz uma personagem atrapalhada e vidrada em livros de suspense e assassinato, o que rende boa parte da comédia do filme ao tentar descobrir quem é o verdadeiro assassino.

Mistério no Mediterrâneio
O casal Audrey e Nick Spitz / Foto: Reprodução – Netflix

Ao mesmo tempo que a relação dos dois é uma grande bagunça cômica, principalmente nos rápidos diálogos que não levam a lugar nenhum, a interação deles não traz nada de diferente do que já é sabido do público que os acompanham.

O elenco de apoio não entrega nada substancial à trama – novamente, este filme não tem pretensão de ser nada além do que ele é. Coronel Ulenga (John Kani) e seu companheiro Sergei (Ólafur Darri) são, sem dúvida, os mais engraçados dos coadjuvantes. Ao lado deles está o Marajá Indiano (Adeel Akhtar), o piloto estrangeiro Juan Carlos (Luis Gerardo Méndez), a estrela de cinema Grace Ballard (Gemman Arterton) e o filho gay renegado de Quince, Tolbey (David Walliams).

O grande triunfo do filme, na verdade, é brincar com o telespectador ao dar motivos para todos terem cometido o crime e, de certa forma, fugir do óbvio de maneira inteligente. Com uma referência estampada em letras garrafais para quem gosta de suspense – e o sucesso de visualizações –, não será surpresa nenhuma uma continuação.

A parceria entre Havaianas e Netflix teve início em 2018, quando lançaram uma edição especial e exclusiva de Stranger Things para o público da CCXP, em São Paulo. A colab entre as duas marcas cresceu e trouxe, além de duas novas estampas da série baseada nos anos 80, sandálias de La Casa de Papel.


Stranger Things

Para as estampas, foram escolhidos símbolos icônicos do universo misterioso de Will, Mike, Eleven, Lucas e Dustin, como as bicicletas, as luzes pisca-pisca e o temido monstro Demogorgon no Mu

La Casa de Papel

A Havaianas se inspirou na famosa máscara de Salvador Dalí e o icônico professor Sérgio Marquina para as duas estampas da linha exclusiva.

Comédia-romântica é um gênero extremamente amplo e saturado dentro de Hollywood. Por sorte, alguns filmes recentes como “Para Todos os Garotos que Já Amei” trazem frescor à indústria, com personagens que nos cativam pelo humor e simplicidade. Infelizmente não é isso que ocorre com “O Date Perfeito” (The Perfect Date), novo longa original da Netflix que traz Noah Centineo como protagonista.

A história gira em torno de Brooks (Noah) e seu sonho de entrar em Yale, uma das faculdades americanas mais prestigiada. Ao ser pago pelos pais de Celia (Laura Marano) por acompanhá-la ao baile de formatura, ele tem a ideia de criar um aplicativo em que garotas podem contratá-lo para ser o “date” delas em diferentes eventos, indo desde uma exposição de artes a uma festa com tema dos anos 80.

Neste meio tempo, Brooks conhece Shelby (Camila Mendes) e tenta impressioná-la de todas as formas possíveis. Contudo, o jovem acaba criando um vínculo forte com Celia durante o tempo que passaram juntos, fazendo com que o garoto tenha que escolher entre a garota mais popular da escola e a rebelde de quem ficou próximo.

O Date Perfeito peca por ser extremamente previsível, com diálogos que, muitas vezes, são preguiçosos. Noah Centineo traz um personagem caricato e com péssimo timing cômico, principalmente por conta do roteiro que traz falas mal encaixadas. A performance do ator é muito parecida a apresentada nas outras produções da Netflix que protagonizou, como “SPF – 18”, “Sierra Burgess é uma Loser” e o próprio “Para Todos os Garotos que Já Amei”.

Já Laura Marano transita entre o excêntrico e a rebeldia sem cair nos clichês que a personagem poderia ter, além de ter um timing para comédia melhor que seu parceiro.  Ela e Noah têm química, e isso é fato, sendo que as melhores cenas do protagonista são ao seu lado.

Apesar de toda a previsibilidade, o longa tem bons momentos como a conversa de Brooks com uma senhora viúva durante o passeio no parque e seu diálogo Shelby – que por mais clichê que possa parecer ainda é um soco no estômago.

O Date Perfeito bebe de fontes dos anos 90, como “10 Coisas que Eu Odeio Em Você”, inclusive seria uma boa adição aos famosos filmes da Sessão da Tarde. Alguns pontos distanciam o longa da nossa realidade – até mesmo do ano de 2019 –, como adolescentes pagando para terem companhias para eventos triviais com a existência de dezenas de aplicativos de encontro gratuitos, por exemplo. Ainda assim, o filme pode ser assistido por aqueles que não se sentem compromissados a ver uma grande obra ou por apreciadores de filmes clichês com temática adolescente.

O Date Perfeito
Foto: Divulgação – Reprodução

Manter a coerência de uma série para sua segunda parte não é uma tarefa fácil, principalmente quando ela ganhou uma grande quantidade de fãs em tão pouco tempo. Felizmente todas as expectativas em torno de “O Mundo Sombrio de Sabrina 2ª Parte” foram atendidas positivamente.

Enquanto a primeira parte apresentada às vésperas do Halloween de 2018 mostrava Sabrina (Kiernan Shipka) aprendendo a lidar com seus poderes enquanto tenta levar uma vida mortal normal, a segunda acaba subvertendo a situação: conforme a deixa da season finale, ela está com seu lado sombrio mais evidente enquanto apenas transita na sua antiga rotina mortal.

A mudança de Sabrina vai além da cor do seu cabelo ou a tonalidade de seu novo batom; Kiernan Shipka conseguiu criar camadas para personagem a ponto de diferenciar os dois momentos de sua vida, com personalidades distintas, e ainda assim manter características como rebeldia, coragem e amor pelos entes queridos presente em ambos. Uma das cenas iniciais, por exemplo, mostra Sabrina trocando de roupa com mágica – fazendo uma divertida referência a série que apresentou a bruxa nos anos 90 “Sabrina: Aprendiz de Feiticeira” – e ouvindo rock’n roll no último volume, gerando estranhamento para suas tias e primo e nos mostrando como aos poucos ela está mudando.

A fotografia escura e a trilha sonora tenebrosa mantém o tom soturno que se faz presente em todos os episódios, principalmente neste momento que Sabrina está se aprofundando no conhecimento das artes das trevas e de seus poderes.  E apesar do universo de O Mundo Sombrio de Sabrina ser fictício, ele trata de temas reais como desconstrução da família tradicional,  bullying,  crenças cegas a qualquer tipo de religião, machismo e feminismo como pano de fundo. Nenhum dos temas levantados aparece de forma gratuita, eles são pincelados na trama de forma sutil ou como um estranho gosto amargo na boca – vide os 5 dogmas que Blackwood deseja implementar na Igreja da Noite.

Todos os personagens ganharam mais tempo de tela; infelizmente no processo algumas histórias se tornam desinteressantes, principalmente no lado dos humanos, em especial do Harvey (Ross Lynch). Já do lado místico é Mary Wardwell/Lilith (Michelle Gomez) que não consegue prender a atenção. Parte do problema está na construção da personagem de Michelle, que não traz o ar de perversidade e perigo real que Lilith representa, se mantendo frígida em suas expressões na maior parte do tempo.

O destaque da série fica para a família Spellman, em especial para as tias Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis). Enquanto Zelda está focada em restabelecer o nome da família e ganhar poder, Hilda mostra que não é tão inofensiva quanto parece. Outra adição interessante na vida de Sabrina é Nick (Gavin Leatherwood), que além de par romântico e ter mais química com ela que seu antigo namorado, a ajuda em diversos momentos importantes durante sua caminhada na escuridão.

O Mundo Sombrio de Sabrina 2ª Parte se mantem coeso com uma continuidade excelente. O desfecho aparece como uma solução provisória para toda a problemática que a série apresentou até o momento. As pontas soltas deixadas também indicam uma continuação interessante para a história da bruxa adolescente.

O Mundo Sombrio de Sabrina -Parte 2
Foto: Reprodução

“Operação Fronteira” é novo filme de ação da Netflix lançado nesta quarta-feira (13). Com elenco estelar, direção de J.C. Chandor e produção de Kathryn Bigelow, o filme conta a história de cinco ex-militares americanos de elite que se unem numa missão clandestina e independente para matar um traficante na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru e roubar sua fortuna, avaliada em 75 milhões de dólares.

Cada um dos homens do grupo, composto pelas estrelas Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Pedro Pascal e Garrett Hedlund, representa a figura do soldado americano jogado ao relento após servir seu país, algo recorrente no cinema hollywoodiano desde Rambo, e é aí que reside a única crítica social do filme, ainda que apresentada de forma tímida no primeiro ato.  Tímida porque não se propõe a se aprofundar nas questões do estresse pós-guerra sofrido por soldados, explorados por outros filmes como Sniper Americano. O filme prefere nos dizer que o único problema para esses homens é não terem recebido o retorno financeiro apropriado após se doarem por 17 anos ao seu país.

Com a exceção de Pope, o personagem de Isaac, todos são militares aposentados e descontentes com o rumo de suas vida, lutando para sobreviver sem o auxílio do Estado que os cooptou para lutar. Quando Pope consegue a localização do traficante com uma informante – vivida pela porto-riquenha Adria Arjona -, não hesita em procurar os antigos companheiros, que agora se dividem em profissões como corretor de imóveis, lutadores de MMA e instrutores do exército.

Com a promessa de um plano simples, ainda que arriscado, e da divisão da fortuna do traficante, o grupo parte para a América do Sul em busca da redenção que seu país ficou devendo. Desde o começo, o roteiro de J.C.Chandor e Mark Boal deixa claro as orientações éticas e morais do grupo, o grande conflito do filme como um todo. Esses homens não são mercenários ou simples matadores sem um código que os guie, apenas soldados cansados atrás daquilo que acreditam possuírem o direito. Os cinco estão completamente cientes, desde o início, de que estão cometendo um crime. “Se ainda estivéssemos no exército, te levaria ao tribunal militar por isso”, diz o personagem de Bem Affleck ao de Oscar Isaac durante ao planejamento da operação.

Portanto, como se para convencer a si mesmo de que o apelo do dinheiro não é tudo e aliviar o peso na consciência do grupo, o personagem de Isaac diz a todo momento que a operação também ajudará a eliminar um dos piores traficantes do continente, algo que o exército e as forças policiais da América do Sul e dos EUA não foram capazes de fazer.

Porém, o plano sofre uma série de imprevistos um atrás do outro, que faz com que o grupo se pergunte se ainda vale a pena levar tudo aquilo adiante, e a operação, que antes envolveria apenas um assassinato e um assalto ao forte do traficante, agora se torna uma luta pela sobrevivência, na qual o grupo se vê obrigado a por seus valores à prova a todo momento para se manterem vivos.

Nesse ato do filme se encontra uma das grandes virtudes de Operação Fronteira. A fotografia do russo Roman Vasyanov é um dos pontos fortes da obra. Com sequências na selva e nas montanhas dos Andes, a paisagem bucólica da América do sul se torna um dos personagens do filme, e o trabalho de câmera nas sequências de ação traz imersão e senso de realidade a quem assiste. As sequências de ação, entretanto, são a grande decepção. Apesar de filmadas com competência, sem muitos cortes, o que proporciona ao espectador o entendimento do que está acontecendo, não há muito o que observar. Os tiroteios parecem sempre acabar tão logo começam, e a tensão esperada em filme como este, de guerrilha e assalto, jamais aterrissa.

Com um fim aberto para uma sequência, Operação Fronteira é um filme de ação sem muita ação, que parece ter confiado apenas no carisma de seu elenco estelar para garantir um filme memorável, se esquecendo de cumprir o que realmente poderia lhe trazer tamanha glória.

Operação Fronteira
Foto: divulgação

Os Jovens Titãs são personagens de uma das principais equipes da DC Universe, ficando atrás apenas da Liga da Justiça. Recentemente, os heróis foram adaptados para a série “Titãs”, que foi produzida pela nova plataforma de streaming de serviços exclusivos da editora, a DC Entertainment, e no Brasil é distribuída pela Netflix.

É sabido que nos cinemas, o universo compartilhado da DC vem passando por grandes obstáculos, desde roteiros ruins a escalações de atores. Contudo, ao mudar o tom sombrio que ditava as obras, desde o “Batman:  O Retorno” (1989) de Tim Burton até “Liga da Justiça” (2017), com os filmes solo da “Mulher Maravilha” e o recente sucesso “Aquaman”, uma luz de esperança recaiu de forma positiva sobre as bilheterias.

Mas se Warner Bros., que é a produtora dos longas metragens, errou a mão  em grande parte dos seus filmes, a CW conseguiu criar uma fórmula mágica que conquistou uma legião de fãs para suas séries (Arrow, Supergirl, Flash e Legends of Tomorrow) de uma forma mais descontraída que as apresentadas nos cinemas. Entretanto, Titãs é uma criação singular, trazendo os principais acertos dos dois movimentos. Ainda mais pensando que ela tem a responsabilidade de reapresentar os heróis que ficaram conhecidos principalmente pela aclamada animação de 2003, podendo ser um grande problema caso falhasse.

Os internautas eram outro ponto que conspirava contra a série, já que todas as informações divulgadas foram amplamente criticadas, como a escalação dos atores, trailers, ataques racistas nas redes sociais, entre outros problemas que poderiam prejudicar a distribuição e a aceitação do público. E por mais que diversos percalços tenham aparecidos, Titãs se provou nos seus 11 episódios e consegue ser excelente ao que se propõe a fazer.

Titãs traz às telas os personagens Dick Greyson/Robin (Brenton Thwaites), Rachel/Ravena (Teagan Croft), Garfield/Mutano (Ryan Potter) e Kory Anders/Estelar (Anna Diop) de uma forma mais realista e palpável, sendo este um dos principais motivos das diferenças da HQ/animação para o live-action. Além deles, outros personagens famosos como Rapina e Columba, Garota-Maravilha e a Patrulha do Destino também fazem participações especiais e deixam pontas para spin-offs.

A trama gira em torno de Robin, que almeja sair da sombra do Batman para se tornar uma pessoa diferente, e sua relação com Rachel, garota que pediu sua ajuda e proteção após presenciar um assassinato e ser perseguida devido ao seu poder.

De forma gradativa, cada um dos heróis vai aparecendo e se integrando a equipe, sempre ligados de alguma forma com a personagem de Teagan Croft. Enquanto Estelar sofre com a perda de memória, com vagas lembranças que precisa encontrar a Rachel, Mutano conhece a protagonista e sente vontade de ajudá-la e ficar ao seu lado.

A série se preocupa em desenvolver seus personagens de diversas formas: os primeiros episódios focam em cada herói; a ambientação escura combina com o universo do qual eles estão inseridos, já que o lado infantil é posto de lado e a violência é mais explorada; os diálogos são espontâneos e não subjugam a inteligência do espectador com a autoexplicação; os vilões são interessantes e ajudam no crescimento da equipe; e o roteiro e a direção extraem o melhor de cada ator.

Brenton Thwaites traz um Robin cheio de nuances e complexidades que se desenvolve bem durante toda sua trajetória, se caracterizando como um dos melhores atores da trama. Ao lado dele, Anna Diop rouba a cena como Estelar, trazendo imponência e uma presença de palco muito forte, além é claro de todo mistério sobre o passado de sua personagem e qual sua relação com a Ravena.

Titãs apresenta cenas de luta muito bem coreografadas, efeitos especiais bem feitos, quando pensados para uma série, principalmente na transformação do Mutano em fera e nas rajadas de energia disparadas por Estelar.

A série não se isenta de alguns problemas funcionais como a demora de Teagan Croft em incorporar a Ravena de forma orgânica, sem parecer forçada nos momentos em que ela necessita apelar pelo sentimentalismo. O Mutano, entre os quatro protagonistas, é o menos explorado e ainda não conseguiu transmitir a importância que o herói tem para equipe e principalmente para a Rachel. Os primeiros episódios tendem a ser mais introdutórios e dar ênfase em personagens secundários que, em primeiro momento, não agregam a trama principal, como é o caso da Patrulha do Destino, apenas para ser o pontapé inicial de uma próxima produção focada neles.

Titãs traz o melhor de dois mundos e se torna algo único para DC, se consagrando como uma das melhores séries de heróis da atualidade. Com um final aberto para uma segunda temporada, existe muito a ser desenvolvido e a fonte de ideias está transbordando, basta agora saber administrá-la para que não fique seca!

“Vai Anitta” é o novo documentário produzido e distribuído pela Netflix, lançado na última sexta (16), que conta um pouco mais da carreira de Larissa de Macedo Machado, a Anitta. A produção é genuína e mostra como a marca Anitta vem sendo lapidada ao longo do tempo, em especial sua projeção fora do país, porém não é pioneira ao mostrar o lado “humano” de uma grande celebridade.

Em todo o Brasil, é simplesmente impossível encontrar uma pessoa que não conheça Anitta ou que não saiba cantar ao menos uma de suas músicas. “Vai Anitta” mostra que, de forma avassaladora, a artista abocanhou o país com o seus hits e que está fazendo o mesmo fora dele de forma rápida. Basta acompanhar seus números – já que ela é a cantora brasileira mais ouvida fora do Brasil, no Youtube e Spotify – ou até mesmo sua crescente posição na Billboard.

O documentário traz diversas pessoas que estão ao redor da cantora, como seu irmão, que é seu sócio, seus pais, empresários, dançarinos, assistentes, amigos, famosos como Jojo Toddynho, Victor Sarro e Nego do Borel, e seu ex-marido, Thiago Magalhães. Todo esse background tem como esforço mostrar um lado mais humano da cantora, tanto para gerar empatia quanto reafirmar como ela é boa no que faz — você pode não gostar da Anitta, mas é inegável como ela faz bem o que se propõe a fazer.

A jornada da sua carreira mais explorada foi o projeto Check Mate, com o qual lançou quatro músicas, com seus clipes, em um período de quatro meses, fazendo parceria com nomes de peso para se projetar fora do Brasil. Outra característica interessante do Check Mate é que cada música tem uma particularidade muito própria, tanto de letra quanto de estilo, mas todas mantêm a assinatura da cantora.

A música “Will I See You” conta com a participação de Poo Bear em uma música mais romântica cantada em inglês que trouxe um pouco da bossa nova. Já a segunda música, “Is That For Me”, também em inglês, contou com as batidas envolventes do DJ Alesso. A terceira música, “Down Town”, aflorou na cantora o ritmo latino, ao lado de J-Balvin, com quem já tinha feito uma música anteriormente. Mas foi apenas na última música que Anitta voltou para suas raízes do funk e fechou o projeto com chave de ouro ao lado de MC Zaac e Maejor. A série explora algumas curiosidades de cada uma das músicas e o relacionamento da cantora com todos os artistas e produtores internacionais.

Um dos momentos mais interessantes da série é o making off do clipe “Indecente”, que foi gravado ao vivo na casa da cantora, além de fazer parte da comemoração do seu aniversário. Durante esse grande evento é possível ver mais sobre Anitta, seu perfeccionismo, suas ideias inovadoras quando se fala de música brasileira e nuances de sua personalidade.

O grande problema da série é justamente como a personalidade da Anitta é tratada. Existe uma autoafirmação em demasia do potencial da cantora, que é inegável, porém existem momentos que queremos ver outras facetas como raiva, exigência, preocupação e tristeza, afinal de contas, ela é humana e existe muita cobrança em cima de seu trabalho. Talvez parte do problema seja o fato de que a própria Anitta é produtora-executiva da série. Essa falta é bastante visível, principalmente quando a série é comparada com outros documentários que possuem a mesma proposta como “Life is But a Dream”, da Beyoncé, no qual todos os aspectos da vida da cantora são explorados e existe maior identificação entre personagem e espectador.

A fotografia no momento das recordações da Anitta é algo que pode incomodar. As fotos da cantora são sobrepostas em fundos coloridos com variações de rosa, algo que, apesar se comunicar com a proposta mais simples e descontraída do documentário, acabou dando um ar muito caseiro e cafona à obra.

“Vai Anitta” desconstrói o arquétipo preconceituoso da funkeira que tem a bunda maior que o cérebro. A cantora mostra seu talento – sempre confirmado por grandes nomes da indústria musical –, suas relações interpessoais, revela defeitos, qualidades, problemas íntimos e se mostra humana como ela é. Muitas vezes a série peca em desenvolver os outros lados da personalidade da Larissa. Ainda assim, a série merece ser assistida por todos que desejam conhecer as virtudes de uma grande artista ou entender a revolução que ela causou na música brasileira.

Close, lacração e purpurina: estas três palavras sintetizam um pouco do que é apresentado em “Super Drags”, a animação brasileira produzida pela Netflix voltada ao público adulto, que tem causado grande repercussão nas mídias sociais desde o trailer até o lançamento dos seus cinco episódios.

É importante ressaltar que esta definitivamente não é uma animação para crianças. Diferente de outros desenhos adultos como “Os Simpsons”, que trabalha com uma linha tênue entre subjetividade e humor ácido – em especial os episódios mais antigos –, Super Drags tem o exagero em sua essência, seja ressaltando as genitálias de seus personagens, espalhando objetos com formato de pênis a cada cena, utilizando muitos palavrões ou mesmo apresentando um monstro gigante criado a partir de uma orgia de milhares de pessoas.

A história gira em torno das Super Drags, título dado ao alter-ego superpoderoso de três funcionários de uma loja de conveniência na cidade fictícia de Guararanhém. Cada um deles possui características muito particulares: Patrick é sensato e inteligente, tido como o líder do grupo ao se transformar em Lemon Chifon; Ralph chama atenção por toda sua delicadeza, apesar do seu tamanho, e pelas referências ao universo otaku, sempre disposto a ajudar os seus amigos ao se transformar em Safira Cyan; já o terceiro e último integrante – muito barraqueiro, diga-se de passagem – é Donizete, que protagoniza algumas das melhores cenas do desenho, tanto no local onde trabalha quanto montado como Scarlet Carmesim.

A série abre um leque de referências muito grande, podendo ser difícil encontrar todas elas assistindo apenas uma vez. Algumas ficam mais visíveis, como a semelhança com  “As Meninas Superpoderosas”, seja pela representação das cores de cada uma, pelo feixe de luz deixado no céu, ou pela singularidade no comportamento das personagens – a inteligente, a esquentada e a delicada. É impossível também não lembrar de “Os Powers Ranges” e seu famoso bordão “é hora de morfar”, quando os personagens deixam de ser simples civis e se transformam nas drags gritando “é hora de montar”. Já o momento da transformação, que é muito brilhante e coreografada, remete a “Sailor Moon”.

Entretanto, é de “Três Espiãs Demais” que Super Drags mais bebe da fonte. Ao sinal de qualquer problema, elas são acionadas por Vedete Champagne, a líder de uma organização secreta dedicada a ajudar as gays necessitadas, e seu robô Dild-o para resolverem os mais diversos tipos de problemas. Sendo acionadas pelo gaydar ou sugadas por uma TV, é fácil fazer uma conexão entre os desenhos.

Um ponto positivo para a série é a sua dublagem excepcional, que conta com nomes como Sérgio Cantú (Patrick),  Wagner Follare (Ralph) e Fernando Mendonça (Donizete), e pelas brasileirices apresentadas, indo da grávida de Taubaté ao pajubá – olá, Enem 2018 –, passando por Ana Carolina, Seu Peru e Hebe Camargo. Já a trilha sonora fica por conta da cantora Pabblo Vittar, que provou ter um pezinho na atuação e tem uma participação significativa nos episódios dando voz à Goldiva, uma celebridade mundial no mundo musical que representa  a comunidade LGBTQ+ na série.

Os antagonistas, que também não ficam de fora do exagero ao tratar de homofobia e preconceito, são o Profeta Sandoval Pedroso, um fanático religioso da Igreja Gozo do Céu, e Lady Elza, uma cantora Drag que deseja chupar o highligth (a energia vital) de todas as gays e desbancar a Goldiva.  E é na construção de ambos que a série dá uma ligeira derrapada e perde a fluidez entre a interação de vilões e heróis, principalmente no último episódio. Um capítulo mais introdutório de Sandoval e Lady Elza e explicações mais palpáveis de suas ações possivelmente fecharia algumas das pontas soltas.

Super Drags apresenta de forma escrachada, porém sem diminuir a importância, questões do cotidiano e a luta da população LGBTQ+ dentro da sociedade, sendo os temas centrais a homofobia manifestada dentro de casa ou no trabalho, a cura gay, o preconceito existente dentro da própria comunidade e, é claro, autoaceitação. A animação traz espaço e representatividade para gays, lésbicas, bi, drags, brancos, negros, pobres, ricos, altos, baixos, gordos, magros e mostra como infelizmente o preconceito está enraizado na sociedade.

Em pleno 2018 em um Brasil com feridas expostas graças a intolerância, Super Drags provou apenas com o trailer que ainda não é produto para qualquer um, podendo assustar pessoas mais conservadoras  – ou de ego frágil – pela forma caricata de apresentar diversos problemas e soluções, ou mesmo deixar um leve amargo na boca com o plot twist do último episódio. Ainda assim, os produtores assumem o risco e colocam a cara no sol ao trazer a primeira animação brasileira distribuída pela Netflix com tema LGBTQ+. Bicha, a senhora é destruidora mesmo hein…

Às vésperas do Halloween, um dos feriados mais esperados nos EUA, a Netflix lançou O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina). Dos mesmos produtores executivos de Riverdale (guarde essa informação, pois ela é importante), a série é sombria e definitivamente para adultos, com clima e atmosfera completamente diferentes da série original dos anos 90.

A história acompanha Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), uma adolescente metade bruxa metade humana prestes a completar 16 anos, que se vê presa entre sua vida mortal e sua vida como serva do Lorde das Trevas. Ela mora em uma funerária/necrotério com suas tias, Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis), e seu primo Ambrose (Chance Perdomo), que está em prisão domiciliar e não pode deixar a residência Spellman. Seus laços com o mundo mortal são seu namorado Harvey Kinkle (Ross Lynch) e suas melhores amigas Susie Putnam (Lachlan Watson) e Rosalind Walker (Jaz Sinclair).

Cada personagem é minuciosamente explorado e desenvolvido, com problemas reais e que nos aproximam a eles para aumentar a imersão na série. Do lado mortal, Rosa tem apenas mais algumas semanas de visão, por conta de uma doença hereditária que atinge apenas as mulheres de sua família. Harvey convive com um pai abusivo e violento, tendo apenas seu irmão mais velho como porto seguro. Susie é uma adolescente não-binária, que ainda não entende seu corpo e nem parece se sentir confortável nele.

Já do lado bruxo, os personagens também nos aproximam e se provam humanos. Zelda tem um instinto materno enorme, mesmo que demonstre de forma rude diversas vezes, e sofre por nunca ter tido um filho que fosse seu. Hilda se sente solitária e vive em romances e novelas de época, sempre na cozinha fazendo doces para compensar algo que falta em sua vida. Ambrose se sente solitário em sua prisão, não podendo reclamar por estar ali como consequência de suas próprias ações. E claro, Sabrina, uma protagonista extremamente carismática que nos envolve em sua angústia e divisão entre dois mundos que ela ama.

A série aborda a religião de forma magistral, podendo gerar alguns problemas e discussões – desnecessárias, devo adicionar – se mal interpretada. Usando a roupagem satanista, o produto critica a devoção cega em diversos momentos, sem nunca precisar apelar para expositividade escancarada ou falas redundantes. Forçar seus descendentes a seguir sua crença, obedecer ao seu “Deus” sem nem mesmo questioná-lo, tradições sem sentido que envolvem mortes desnecessárias e que são glorificadas até os dias de hoje. Estes são apenas alguns exemplos de como a série consegue criticar apenas gerando reflexão no espectador, um recurso extremamente inteligente nos dias de hoje.

Também é possível ver temas como empoderamento feminino, machismo, diferença social e racismo sendo tratados de forma sutil, estando no produto para quem quiser (ou conseguir) interpretá-lo e pegar essas pequenas dicas. Um grupo de garotas unidas para monitorar problemas na escola. Uma garota que resolve se vingar por uma amiga que sofreu, e essa vingança (em uma das cenas mais geniais de toda a temporada) é retirar a “masculinidade” dos agressores. Esta série é das mulheres, e ninguém pode dizer o contrário.

A cenografia consegue criar o mesmo clima de Riverdale (por isso a informação do primeiro parágrafo era importante). Uma cidade e pessoas que vivem nos dias de hoje, mas que dialogam claramente com as décadas de 50 e 60. Cabines telefônicas, restaurantes com cabines de poltronas que servem milk-shake e hambúrgueres. Figurino que mistura elementos da época e dos dias de hoje, com rendas decorando camisas sociais, minissaias ou vestidos com saiotes rodados e casacos grandes cobrindo tudo isso. E se você é fã de Riverdale, pode ter certeza que surpresas o aguardam em O Mundo Sombrio de Sabrina.

Um recurso inovador de fotografia pode ser percebido em diversas cenas onde a “magia” acontece, tendo uma espécie de vinheta cobrindo a tela nas extremidades que borra a imagem e dificulta nossa visualização, como se o espectador estivesse sob o efeito da magia. Tons mais quentes em momentos calmos no mundo mortal e tons frios em momentos tensos no mundo da magia. As cenas na floresta são assustadoras, muito semelhantes às vistas no filme “A Bruxa” (2016). Rituais, invocações e as próprias magias são mais sombrias e próximas a realidade por serem subjetivas, como bonecos de vodoo e palavras que causam alguma ação indiretamente. A magia aqui nada mais é do que a manipulação leve de alguns dos eventos já em curso.

Um dos personagens mais queridos e que o público também pediu foi Salem, o gato de Sabrina e seu familiar. Segundo a crença do universo de Sabrina, o familiar estabelece um elo mágico (relação psíquica estabelecida entre um humano e um animal) com uma bruxa ou bruxo, o protegendo e auxiliando no que for necessário. Diferente da série dos anos 90, Salem é compreendido apenas por Sabrina, se comunicando por meio de miados e leves ronronares. Isso pode decepcionar quem esperava as já conhecidas tiradas sarcásticas do personagem, mas foi uma escolha muito inteligente de direção e roteiro para o contexto estabelecido, dando um ar ainda mais sombrio para o animal e a série.

O Mundo Sombrio de Sabrina não é apenas uma série sobre satanismo, bruxaria, mulheres poderosas e instituições questionáveis. Também é divertida, cativante e em muitos momentos assustadora. Com um clima perfeito para uma maratona no Halloween, tem 10 episódios que variam de 55 minutos a 1 hora. Pode parecer muito, mas tenha certeza que todo o tempo gasto vale a pena, e pode ser comprovado com os 90% de aprovação que a série tem no Rotten Tomatoes.