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Histórias em quadrinhos

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O constante desenvolvimento do mundo digital não conseguiu inibir o amor que os colecionadores de histórias em quadrinhos sentem pelos livrinhos físicos e isso ficou claro no Festival Guia dos Quadrinhos, que aconteceu nos dias 14 e 15 no Club Homs, em São Paulo.

Nesta edição, o evento fez homenagem aos 25 anos do selo Vertigo,  da DC Comics. O Festival também contou com ilustrações e publicações históricas, além de ter apresentado o lançamento do livro Vertigo: Além do limiar. O evento contou com ilustrações originais de Octavio Cariello, o artista homenageado dessa edição de 2018.

O evento trouxe diversos fãs para mostras das mais variadas histórias em quadrinhos que iam desde as clássicos da Marvel, DC e Disney a mangás, revistas e histórias independentes. O evento também contemplou espaço para a venda de colecionáveis, camisetas e diversos tipos de desenhos, cartoons e esculturas feitas por artistas.

A  ilustradora e designer gráfica Andréia Carbonari aproveitou  o espaço para divulgar sua arte. “Este é meu primeiro evento e estou muito contente. Eu já comecei com a ilustração há muito tempo, mas estou me arriscando agora”, comenta.

O espaço para a divulgação foi propício para a ilustradora uma vez que ela entrou na profissão por meio do universo geek. Andréia revelou que tudo começou ainda quando criança assistindo Sailor Moon e Mulher Maravilha. “Desde criança o mundo geek me inspira. Foi ele que me inspirou a desenhar e despertou a vontade de fazer minhas próprias HQs e até hoje eles me inspiram em tudo”, diz a ilustradora.

O Festival Guia dos Quadrinhos também promoveu o Quiz Nerd, onde os visitantes entravam em uma fila no salão principal para responder uma pergunta relacionada a histórias em quadrinhos, filmes, séries e cultura pop, na quual quem acertava ganhava um prêmio e quem errava voltava para o final da fila.

Além de stands contemplando diversos trabalhos, o Festival Guia dos Quadrinhos contou com uma programação recheada de conversas com profissionais do meio das histórias em quadrinhos como o bate-papo sobre bastidores das publicações da Vertigo no Brasil, que contou com a participação de Cassio Medauar da JBC; Leandro Luigi Del Manto, da Devir; Sidney Gusman, da Maurício de Sousa Produções; e Marcelo Naranjo, editor do site Universo HQ.

Ainda houve conversas sobre os 10 anos da Marvel no cinema e sobre os quadrinhos Disney, um concursos de cosplay, sessões de autógrafos com as atrações e um leilão de quadrinhos e artes originais de diversos catálogos.  O Festival Guia dos Quadrinhos 2018 mostrou mais uma vez o carinho do colecionador objeto e promete voltar com uma edição maior e cheias de novidades em 2019.

 

Desde o lançamento da série 13 Reasons Why e o surgimento do jogo Baleia Azul, o assunto depressão e bullying está entrando em pauta e sendo muito discutido dentro das salas de aulas e fora do âmbito escolar também. Falar sobre esse assunto está cada vez mais urgente, já que passou da época em que fazer bulliyng era somente uma brincadeira de amigos da escola. A temática ganhou proporções devido à necessidade de se falar sobre isso.

A ativista-social Vanessa Bencz entendeu a urgência de falar sobre o bullying quando percebeu em suas palestras sobre leitura infantil que essa prática ainda era muito comum.

“Há cinco anos, quando comecei a fazer palestras em escolas sobre a importância da leitura, vi que o bullying está tão forte quanto na minha adolescência. Isso me revoltou demais. Pensei: estamos na época da internet, da informação, e isso ainda existe? Então comecei a focar minhas palestras neste tema. Minha intenção era ensinar ferramentas de fortalecimento psicológico para estudantes, mas vi que o problema da violência nas escolas era bem pior do que eu imaginava. Muitos professores não estão preparados para lidar com casos de bullying – e inclusive muitos deles ainda pensam que bullying fortalece caráter”, comenta Vanessa.

Foi a partir dessa data que Vanessa se consolidou no tema e começou a falar cada vez mais para os adolescentes.

A conscientização precisa ser feita principalmente com quem pratica o bullying; segundo uma pesquisa do  Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dois em cada dez alunos assumem já ter praticado bullying alguma vez.

Para poder falar com um público ainda maior e de maneira mais descomplicada, Vanessa Bencz criou a HQ Por Enquanto, que conta a história da jovem Ana, de 16 anos, que se automutila para lidar com as suas dores.

Vanessa conta que também já sofreu bullying, e que foi bastante difícil começar a palestrar sobre o assunto. “Vivi o bullying quando eu tinha 13 anos, então, isso faz parte da minha história. Na época – há 19 anos –, não existia a expressão bullying. Falava-se apenas que eram brincadeiras ou ‘zoeira’. E a gente tinha que aguentar. Os professores me diziam ‘o mundo é dos fortes e você precisa aprender a aguentar essas zoeiras’. No começo eu me sentia extremamente exposta e vulnerável. Depois das minhas primeiras palestras, eu sentia uma espécie de ressaca. É como se fosse um arrependimento e uma sensação de fraqueza por ter aberto a minha intimidade com estranhos. Mas, aos poucos, me acostumei e entendi que falar sobre esta parte da minha história é totalmente necessário”, finaliza.

“Por Enquanto” é uma HQ que conta a história da jovem Ana, de 16 anos, que se automutila para lidar com as suas dores.

Você conhece o personagem chamado João pestana? Este é um ser mágico que tem relação com os sonhos, e tem a finalidade de colocar areia nos olhos das pessoas para poderem dormir à noite e induzi-las à sonhar tranquilamente. O personagem é uma figura conhecida no folclore brasileiro, e mais do que isto, é mundialmente chamado e aclamado como ”Sandman”. 

Criado por Neil Gaiman, e publicado em formato de histórias em quadrinhos sob o selo Vertigo (Histórias para maiores de 18 anos) da Dc Comics, Sandman retrata a vida do senhor dos sonhos, e sua interação com o universo, os homens e outras criaturas. A história aproveita-se dos questionamentos humanos e dos pecados que nos cercam para devanear sobre nossa existência e como a passagem pela vida pode ser preciosa, alegre ou angustiante.

Os personagens mais complexos e reflexivos são chamados de Perpétuos, sendo eles: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Sandman, ou ”senhor do sonhos”, é o protagonista, e constantemente busca interação com seres humanos para tentar entender o que é a vida. Em sua jornada, ele é responsável por desenvolver arcos que movimentam a narrativa, e acabe gerando conflitos entres os seres de seu universo.

Além dos pensamentos e atitudes críticas que a trama pode proporcionar, a ilustração é totalmente única e inspiradora para qualquer quadrinista. Os balões de diálogos não possuem proporção reta e simplória, todos percorrem a página e são inseridos de modo criativo, e que acabam preenchendo todo o espaço. A diagramação tenta ao máximo ser inovadora em quase todas às paginas, e na maior parte das vezes, trás sensações ao leitor que são inesquecíveis e magníficas. Às personagens contrastam com ambientes coloridos, ricos em detalhes e diversificados, além do traço variar entre o estilo gótico, e o surrealista.

A série é o ponto alto de qualquer colecionador de quadrinhos, sendo uma das obras obrigatórias de leitura para poder dizer que entende do assunto. A genialidade de Neil Gaiman é reconhecida mundialmente, sendo Sandman sua mais preciosa criação. A ilustração sempre procura estar atualizada com técnicas digitais, manuais e inspiradas em quadros aclamados pelo mundo com os de Salvador Dalí.

Os artistas desta HQ incluem Sam Kieth, Mike Dringenberg, Jill Thompson, Shawn McManus, Marc Hempel e Michael Zulli. A História foi publicada de 1989 à 1996, contendo um total de 75 edições, e com a popularidade da série, a DC começou a publicá-las posteriormente em edições de capa dura e brochura. Atualmente, novos contos estão sendo escritos, e logo estarão disponíveis ao público. Abaixo, confira uma frase retirada de um dos contos e perceba a essência do pensamento crítico, e do despertar do conhecimento que o autor busca passar ao leitor, sendo esta uma das mais belas frases encontradas em Sandman:

“O mundo é tão sólido e estável quanto uma camada de espumas sob um poço sem fundo de águas negras. Significa que somos apenas bonecas. Que não sabemos nada sobre o que realmente acontece. Que só nos enganamos sobre controlarmos nossas vidas porque a uma distância menor do que a espessura do papel, coisas que nos levariam à loucura, se pensássemos nela por muito tempo, brincam conosco”, Rose Walker.

-Fragmento de Sandman;  Neil Gaiman;  A CASA DE BONECAS; Edição de 1990.

Foto: Vertigo / Dc Comics.
Foto: Vertigo – Dc Comics.

Fotógrafo, quadrinista e estudante de geografia pela Universidade de São Paulo, Wes Nunes, de 24 anos, é o fundador da página Manifesto dos Quadrinhos, criada em junho de 2014. Com mais de 31 mil curtidas no Facebook, as abordagens são temas de críticas sociais e defesa ao público LGBT. Wes conversou sobre o seu trabalho e suas inspirações com a nossa redação.

Opa – O que te incentivou a dar início ao Manifesto dos Quadrinhos?

Wes – Na época em que criei a página, eu tinha passado uns três anos sem desenhar absolutamente nada, pois vivi um período difícil de depressão. Voltei desenhando coisas que tinham a ver com o meu estado emocional. Tenho uma conexão muito grande com desenhos, acima de muita coisa em relação à minha vida, e passei a transformar tudo o que estava sentindo sobre coisas reprimidas de sexualidade em quadrinhos.

Opa – O que te levou a abordar temas tão críticos contra a PM e em defesa da periferia?

Wes – Quando se fala de periferia, automaticamente, há uma ligação à violência numa relação de marginalização pelo espaço habitado. A PM é um instrumento do Estado que realiza essa ação, por isso nos meus trabalhos você vai encontrar muito essa abordagem. Eu cresci homossexual na periferia, onde a violência ao pobre, ao negro, à mulher se materializa contra esses indivíduos, justamente por uma exclusão espacial.

Opa – Como funcionam as produções e as periodicidades de criação?

Wes – A periodicidade tem que ser semanal, eu diria. Com a minha volta aos desenhos, mesmo com menos qualidade por ter ficado parado há tanto tempo, passei a postar no meu perfil pessoal do Facebook e logo em seguida resolvi fazer a página para compartilhar mais. Hoje já tenho mais recursos físicos para continuar produzindo.

Opa – Qual a importância dos quadrinhos para a conscientização do público com os temas abordados?

Wes – A conscientização do público vem de acordo com a apropriação que as pessoas têm em relação a esse trabalho. Mesmo que o artista tenha uma mensagem crítica, é preciso que o público absorva essa mensagem. É uma ótica de signos que partem dessa atribuição de mensagem visual para a sociedade.

Opa – Você recebe muitas críticas por defender o público LGBT?

Wes – Há muitos comentários em forma de palavras, de imagens, com uma tentativa de me atingir por ser homossexual. Como alguém que aborda essas temáticas, eu sempre excluo e bloqueio as ofensas, pois não são críticas, são discursos de ódio.

Foto: Arquivo pessoal
Wes Nunes, quadrinista de histórias em quadrinhos LGBT / Foto: Arquivo pessoal