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“Operação Fronteira” é novo filme de ação da Netflix lançado nesta quarta-feira (13). Com elenco estelar, direção de J.C. Chandor e produção de Kathryn Bigelow, o filme conta a história de cinco ex-militares americanos de elite que se unem numa missão clandestina e independente para matar um traficante na fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru e roubar sua fortuna, avaliada em 75 milhões de dólares.

Cada um dos homens do grupo, composto pelas estrelas Ben Affleck, Oscar Isaac, Charlie Hunnam, Pedro Pascal e Garrett Hedlund, representa a figura do soldado americano jogado ao relento após servir seu país, algo recorrente no cinema hollywoodiano desde Rambo, e é aí que reside a única crítica social do filme, ainda que apresentada de forma tímida no primeiro ato.  Tímida porque não se propõe a se aprofundar nas questões do estresse pós-guerra sofrido por soldados, explorados por outros filmes como Sniper Americano. O filme prefere nos dizer que o único problema para esses homens é não terem recebido o retorno financeiro apropriado após se doarem por 17 anos ao seu país.

Com a exceção de Pope, o personagem de Isaac, todos são militares aposentados e descontentes com o rumo de suas vida, lutando para sobreviver sem o auxílio do Estado que os cooptou para lutar. Quando Pope consegue a localização do traficante com uma informante – vivida pela porto-riquenha Adria Arjona -, não hesita em procurar os antigos companheiros, que agora se dividem em profissões como corretor de imóveis, lutadores de MMA e instrutores do exército.

Com a promessa de um plano simples, ainda que arriscado, e da divisão da fortuna do traficante, o grupo parte para a América do Sul em busca da redenção que seu país ficou devendo. Desde o começo, o roteiro de J.C.Chandor e Mark Boal deixa claro as orientações éticas e morais do grupo, o grande conflito do filme como um todo. Esses homens não são mercenários ou simples matadores sem um código que os guie, apenas soldados cansados atrás daquilo que acreditam possuírem o direito. Os cinco estão completamente cientes, desde o início, de que estão cometendo um crime. “Se ainda estivéssemos no exército, te levaria ao tribunal militar por isso”, diz o personagem de Bem Affleck ao de Oscar Isaac durante ao planejamento da operação.

Portanto, como se para convencer a si mesmo de que o apelo do dinheiro não é tudo e aliviar o peso na consciência do grupo, o personagem de Isaac diz a todo momento que a operação também ajudará a eliminar um dos piores traficantes do continente, algo que o exército e as forças policiais da América do Sul e dos EUA não foram capazes de fazer.

Porém, o plano sofre uma série de imprevistos um atrás do outro, que faz com que o grupo se pergunte se ainda vale a pena levar tudo aquilo adiante, e a operação, que antes envolveria apenas um assassinato e um assalto ao forte do traficante, agora se torna uma luta pela sobrevivência, na qual o grupo se vê obrigado a por seus valores à prova a todo momento para se manterem vivos.

Nesse ato do filme se encontra uma das grandes virtudes de Operação Fronteira. A fotografia do russo Roman Vasyanov é um dos pontos fortes da obra. Com sequências na selva e nas montanhas dos Andes, a paisagem bucólica da América do sul se torna um dos personagens do filme, e o trabalho de câmera nas sequências de ação traz imersão e senso de realidade a quem assiste. As sequências de ação, entretanto, são a grande decepção. Apesar de filmadas com competência, sem muitos cortes, o que proporciona ao espectador o entendimento do que está acontecendo, não há muito o que observar. Os tiroteios parecem sempre acabar tão logo começam, e a tensão esperada em filme como este, de guerrilha e assalto, jamais aterrissa.

Com um fim aberto para uma sequência, Operação Fronteira é um filme de ação sem muita ação, que parece ter confiado apenas no carisma de seu elenco estelar para garantir um filme memorável, se esquecendo de cumprir o que realmente poderia lhe trazer tamanha glória.

Operação Fronteira
Foto: divulgação

Capitã Marvel” é um longa que traz um respiro para o gênero de super-heróis graças a sua narrativa diferenciada, principalmente por se tratar de um filme de origem. O grande acerto é jogar o público dentro da história, sem a necessidade de muitas explicações, fazendo com que os expectadores fiquem atentos desde a primeira cena. Isso acontece porque a Capitã Marvel, alter ego de Carol Danvers, não se lembra de seu passado, e a medida que a história avança, flashbacks vão direcionando o público e a personagem.

Muitos fãs questionaram a qualidade da atuação de Brie Larson (“O Quarto de Jack”) como Capitã Marvel, já que a atriz foi duramente criticada quando materiais promocionais do filme começaram a ser divulgados. Acontece que nos 128 minutos da película, toda essa discussão causada por trailers se prova tão sem fundamento quanto desnecessária.

A atriz traz camadas diferenciadas à Carol Danvers, quando comparada aos outros atores e personagens já estabelecidos no universo. O motivo? Ela não precisa provar nada a ninguém! Ela é extremamente poderosa – e sabe disso -, não tem medo de enfrentar seus adversários ou lutar pelo que acredita ser o certo, sendo que esses sentimentos são expressados através de uma atuação linear, calma e pouco jocosa. A graça que Larson oferece como Capitã Marvel é diferente de personagens como Tony Stark (Robert Downey Jr.) ou Thor (Chris Hemsworth), já que ela aposta em um tom mais firme, seco e debochado para suas piadas.

Em contra partida, Nick Fury (Samuel L. Jackson) é o oposto da personagem principal. Mais novo e menos experiente, o espião que futuramente se tornará o líder da S.H.I.EL.D é o alívio cômico, principalmente quando interage com o gato Goose. Ele sim brinca de maneira escrachada e dá ao longa características já conhecidas nos filmes da Casa das Ideias.

Quem também se destaca pelo humor é Talos (Ben Mendelsohn),  um líder alienígena da raça Skrull que está em guerra com os Kree do qual Danvers pertence. O ator consegue fazer valer cada segundo em cena, tendo um ótimo timing cômico, desarmando o público em cenas mais tensas e divertindo em momentos precisos.

Capitã Marvel se passa nos anos 90, muito tempo antes do estalar de dedos do Thanos em “Vingadores: Guerra Infinita”. A representação da época é marcada por objetos e ações simples como ligar de orelhões, utilizar internet discada ou aterrizar dentro de um locadora. Toda a parte visual e narrativa se esforça para nos transportar para aquele tempo, inclusive a interação entre Danvers e Fury remetem aos filmes de comédia policial que faziam sucesso nesse período. Entretanto, a trilha sonora não entrega tudo o que poderia e isso fica claro quando a comparamos com Guardiões da Galáxia, que tem uma forte ligação com a mesma época e oferece um dos trabalhos mais memoráveis de composições musicais da Marvel.

Um dos maiores problemas do filme é que ele traz muitos personagens que não têm tanta ou nenhuma relevância à história, como a tropa Kree que Carol trabalha, o que acaba impactando no desenvolvimento dos personagens importantes como Yon-Rogg (Jude Law), que é facilmente esquecido. Os efeitos visuais em cenas pontuais causam certa estranheza, como a primeira conexão da Capitã Marvel com a Inteligência Suprema Kree e algumas cenas dela no espaço, bem como a caracterização da raça Skrull, que traz uma maquiagem muito pesada tornando-os inexpressivos.

Capitã Marvel traz como pano de fundo questões atuais como o feminismo, com destaque para a luta das mulheres por espaços majoritariamente ocupados por homens. Ela é uma das únicas mulheres da força aérea a pilotar aeronaves, ao lado de sua melhor amiga Maria Rambeau (lashana Lynch), e é privada de fazer parte do seu trabalho pelo fato de ser uma mulher. Outra personagem que dá peso nesse sentido é a Mar-Vell (Annette Bening), uma cientista que ocupa uma posição extremamente importante, se tornado a grande inspiração de inteligência, altruísmo e força para a heroína, sendo que esse apreço é destacado algumas vezes na história.

Por ser a primeira mulher a protagonizar um filme solo de heroína no UCM, Capitã Marvel não só preparou o terreno para o próximo longa dos Vingadores como abriu espaço para mais diversidade dentro do gênero de heróis, quebrando recordes já no primeiro final de semana de distribuição, sendo a 6 ª melhor bilheteria de estreia da história e a maior bilheteria de estreia de um filme protagonizado por uma mulher. “Mais alto, mais longe, mais rápido”, frase marcante dita por Carol Danvers, sintetiza bem a importância da heroína dentro e fora das telas.

Os Jovens Titãs são personagens de uma das principais equipes da DC Universe, ficando atrás apenas da Liga da Justiça. Recentemente, os heróis foram adaptados para a série “Titãs”, que foi produzida pela nova plataforma de streaming de serviços exclusivos da editora, a DC Entertainment, e no Brasil é distribuída pela Netflix.

É sabido que nos cinemas, o universo compartilhado da DC vem passando por grandes obstáculos, desde roteiros ruins a escalações de atores. Contudo, ao mudar o tom sombrio que ditava as obras, desde o “Batman:  O Retorno” (1989) de Tim Burton até “Liga da Justiça” (2017), com os filmes solo da “Mulher Maravilha” e o recente sucesso “Aquaman”, uma luz de esperança recaiu de forma positiva sobre as bilheterias.

Mas se Warner Bros., que é a produtora dos longas metragens, errou a mão  em grande parte dos seus filmes, a CW conseguiu criar uma fórmula mágica que conquistou uma legião de fãs para suas séries (Arrow, Supergirl, Flash e Legends of Tomorrow) de uma forma mais descontraída que as apresentadas nos cinemas. Entretanto, Titãs é uma criação singular, trazendo os principais acertos dos dois movimentos. Ainda mais pensando que ela tem a responsabilidade de reapresentar os heróis que ficaram conhecidos principalmente pela aclamada animação de 2003, podendo ser um grande problema caso falhasse.

Os internautas eram outro ponto que conspirava contra a série, já que todas as informações divulgadas foram amplamente criticadas, como a escalação dos atores, trailers, ataques racistas nas redes sociais, entre outros problemas que poderiam prejudicar a distribuição e a aceitação do público. E por mais que diversos percalços tenham aparecidos, Titãs se provou nos seus 11 episódios e consegue ser excelente ao que se propõe a fazer.

Titãs traz às telas os personagens Dick Greyson/Robin (Brenton Thwaites), Rachel/Ravena (Teagan Croft), Garfield/Mutano (Ryan Potter) e Kory Anders/Estelar (Anna Diop) de uma forma mais realista e palpável, sendo este um dos principais motivos das diferenças da HQ/animação para o live-action. Além deles, outros personagens famosos como Rapina e Columba, Garota-Maravilha e a Patrulha do Destino também fazem participações especiais e deixam pontas para spin-offs.

A trama gira em torno de Robin, que almeja sair da sombra do Batman para se tornar uma pessoa diferente, e sua relação com Rachel, garota que pediu sua ajuda e proteção após presenciar um assassinato e ser perseguida devido ao seu poder.

De forma gradativa, cada um dos heróis vai aparecendo e se integrando a equipe, sempre ligados de alguma forma com a personagem de Teagan Croft. Enquanto Estelar sofre com a perda de memória, com vagas lembranças que precisa encontrar a Rachel, Mutano conhece a protagonista e sente vontade de ajudá-la e ficar ao seu lado.

A série se preocupa em desenvolver seus personagens de diversas formas: os primeiros episódios focam em cada herói; a ambientação escura combina com o universo do qual eles estão inseridos, já que o lado infantil é posto de lado e a violência é mais explorada; os diálogos são espontâneos e não subjugam a inteligência do espectador com a autoexplicação; os vilões são interessantes e ajudam no crescimento da equipe; e o roteiro e a direção extraem o melhor de cada ator.

Brenton Thwaites traz um Robin cheio de nuances e complexidades que se desenvolve bem durante toda sua trajetória, se caracterizando como um dos melhores atores da trama. Ao lado dele, Anna Diop rouba a cena como Estelar, trazendo imponência e uma presença de palco muito forte, além é claro de todo mistério sobre o passado de sua personagem e qual sua relação com a Ravena.

Titãs apresenta cenas de luta muito bem coreografadas, efeitos especiais bem feitos, quando pensados para uma série, principalmente na transformação do Mutano em fera e nas rajadas de energia disparadas por Estelar.

A série não se isenta de alguns problemas funcionais como a demora de Teagan Croft em incorporar a Ravena de forma orgânica, sem parecer forçada nos momentos em que ela necessita apelar pelo sentimentalismo. O Mutano, entre os quatro protagonistas, é o menos explorado e ainda não conseguiu transmitir a importância que o herói tem para equipe e principalmente para a Rachel. Os primeiros episódios tendem a ser mais introdutórios e dar ênfase em personagens secundários que, em primeiro momento, não agregam a trama principal, como é o caso da Patrulha do Destino, apenas para ser o pontapé inicial de uma próxima produção focada neles.

Titãs traz o melhor de dois mundos e se torna algo único para DC, se consagrando como uma das melhores séries de heróis da atualidade. Com um final aberto para uma segunda temporada, existe muito a ser desenvolvido e a fonte de ideias está transbordando, basta agora saber administrá-la para que não fique seca!

“Vai Anitta” é o novo documentário produzido e distribuído pela Netflix, lançado na última sexta (16), que conta um pouco mais da carreira de Larissa de Macedo Machado, a Anitta. A produção é genuína e mostra como a marca Anitta vem sendo lapidada ao longo do tempo, em especial sua projeção fora do país, porém não é pioneira ao mostrar o lado “humano” de uma grande celebridade.

Em todo o Brasil, é simplesmente impossível encontrar uma pessoa que não conheça Anitta ou que não saiba cantar ao menos uma de suas músicas. “Vai Anitta” mostra que, de forma avassaladora, a artista abocanhou o país com o seus hits e que está fazendo o mesmo fora dele de forma rápida. Basta acompanhar seus números – já que ela é a cantora brasileira mais ouvida fora do Brasil, no Youtube e Spotify – ou até mesmo sua crescente posição na Billboard.

O documentário traz diversas pessoas que estão ao redor da cantora, como seu irmão, que é seu sócio, seus pais, empresários, dançarinos, assistentes, amigos, famosos como Jojo Toddynho, Victor Sarro e Nego do Borel, e seu ex-marido, Thiago Magalhães. Todo esse background tem como esforço mostrar um lado mais humano da cantora, tanto para gerar empatia quanto reafirmar como ela é boa no que faz — você pode não gostar da Anitta, mas é inegável como ela faz bem o que se propõe a fazer.

A jornada da sua carreira mais explorada foi o projeto Check Mate, com o qual lançou quatro músicas, com seus clipes, em um período de quatro meses, fazendo parceria com nomes de peso para se projetar fora do Brasil. Outra característica interessante do Check Mate é que cada música tem uma particularidade muito própria, tanto de letra quanto de estilo, mas todas mantêm a assinatura da cantora.

A música “Will I See You” conta com a participação de Poo Bear em uma música mais romântica cantada em inglês que trouxe um pouco da bossa nova. Já a segunda música, “Is That For Me”, também em inglês, contou com as batidas envolventes do DJ Alesso. A terceira música, “Down Town”, aflorou na cantora o ritmo latino, ao lado de J-Balvin, com quem já tinha feito uma música anteriormente. Mas foi apenas na última música que Anitta voltou para suas raízes do funk e fechou o projeto com chave de ouro ao lado de MC Zaac e Maejor. A série explora algumas curiosidades de cada uma das músicas e o relacionamento da cantora com todos os artistas e produtores internacionais.

Um dos momentos mais interessantes da série é o making off do clipe “Indecente”, que foi gravado ao vivo na casa da cantora, além de fazer parte da comemoração do seu aniversário. Durante esse grande evento é possível ver mais sobre Anitta, seu perfeccionismo, suas ideias inovadoras quando se fala de música brasileira e nuances de sua personalidade.

O grande problema da série é justamente como a personalidade da Anitta é tratada. Existe uma autoafirmação em demasia do potencial da cantora, que é inegável, porém existem momentos que queremos ver outras facetas como raiva, exigência, preocupação e tristeza, afinal de contas, ela é humana e existe muita cobrança em cima de seu trabalho. Talvez parte do problema seja o fato de que a própria Anitta é produtora-executiva da série. Essa falta é bastante visível, principalmente quando a série é comparada com outros documentários que possuem a mesma proposta como “Life is But a Dream”, da Beyoncé, no qual todos os aspectos da vida da cantora são explorados e existe maior identificação entre personagem e espectador.

A fotografia no momento das recordações da Anitta é algo que pode incomodar. As fotos da cantora são sobrepostas em fundos coloridos com variações de rosa, algo que, apesar se comunicar com a proposta mais simples e descontraída do documentário, acabou dando um ar muito caseiro e cafona à obra.

“Vai Anitta” desconstrói o arquétipo preconceituoso da funkeira que tem a bunda maior que o cérebro. A cantora mostra seu talento – sempre confirmado por grandes nomes da indústria musical –, suas relações interpessoais, revela defeitos, qualidades, problemas íntimos e se mostra humana como ela é. Muitas vezes a série peca em desenvolver os outros lados da personalidade da Larissa. Ainda assim, a série merece ser assistida por todos que desejam conhecer as virtudes de uma grande artista ou entender a revolução que ela causou na música brasileira.

Close, lacração e purpurina: estas três palavras sintetizam um pouco do que é apresentado em “Super Drags”, a animação brasileira produzida pela Netflix voltada ao público adulto, que tem causado grande repercussão nas mídias sociais desde o trailer até o lançamento dos seus cinco episódios.

É importante ressaltar que esta definitivamente não é uma animação para crianças. Diferente de outros desenhos adultos como “Os Simpsons”, que trabalha com uma linha tênue entre subjetividade e humor ácido – em especial os episódios mais antigos –, Super Drags tem o exagero em sua essência, seja ressaltando as genitálias de seus personagens, espalhando objetos com formato de pênis a cada cena, utilizando muitos palavrões ou mesmo apresentando um monstro gigante criado a partir de uma orgia de milhares de pessoas.

A história gira em torno das Super Drags, título dado ao alter-ego superpoderoso de três funcionários de uma loja de conveniência na cidade fictícia de Guararanhém. Cada um deles possui características muito particulares: Patrick é sensato e inteligente, tido como o líder do grupo ao se transformar em Lemon Chifon; Ralph chama atenção por toda sua delicadeza, apesar do seu tamanho, e pelas referências ao universo otaku, sempre disposto a ajudar os seus amigos ao se transformar em Safira Cyan; já o terceiro e último integrante – muito barraqueiro, diga-se de passagem – é Donizete, que protagoniza algumas das melhores cenas do desenho, tanto no local onde trabalha quanto montado como Scarlet Carmesim.

A série abre um leque de referências muito grande, podendo ser difícil encontrar todas elas assistindo apenas uma vez. Algumas ficam mais visíveis, como a semelhança com  “As Meninas Superpoderosas”, seja pela representação das cores de cada uma, pelo feixe de luz deixado no céu, ou pela singularidade no comportamento das personagens – a inteligente, a esquentada e a delicada. É impossível também não lembrar de “Os Powers Ranges” e seu famoso bordão “é hora de morfar”, quando os personagens deixam de ser simples civis e se transformam nas drags gritando “é hora de montar”. Já o momento da transformação, que é muito brilhante e coreografada, remete a “Sailor Moon”.

Entretanto, é de “Três Espiãs Demais” que Super Drags mais bebe da fonte. Ao sinal de qualquer problema, elas são acionadas por Vedete Champagne, a líder de uma organização secreta dedicada a ajudar as gays necessitadas, e seu robô Dild-o para resolverem os mais diversos tipos de problemas. Sendo acionadas pelo gaydar ou sugadas por uma TV, é fácil fazer uma conexão entre os desenhos.

Um ponto positivo para a série é a sua dublagem excepcional, que conta com nomes como Sérgio Cantú (Patrick),  Wagner Follare (Ralph) e Fernando Mendonça (Donizete), e pelas brasileirices apresentadas, indo da grávida de Taubaté ao pajubá – olá, Enem 2018 –, passando por Ana Carolina, Seu Peru e Hebe Camargo. Já a trilha sonora fica por conta da cantora Pabblo Vittar, que provou ter um pezinho na atuação e tem uma participação significativa nos episódios dando voz à Goldiva, uma celebridade mundial no mundo musical que representa  a comunidade LGBTQ+ na série.

Os antagonistas, que também não ficam de fora do exagero ao tratar de homofobia e preconceito, são o Profeta Sandoval Pedroso, um fanático religioso da Igreja Gozo do Céu, e Lady Elza, uma cantora Drag que deseja chupar o highligth (a energia vital) de todas as gays e desbancar a Goldiva.  E é na construção de ambos que a série dá uma ligeira derrapada e perde a fluidez entre a interação de vilões e heróis, principalmente no último episódio. Um capítulo mais introdutório de Sandoval e Lady Elza e explicações mais palpáveis de suas ações possivelmente fecharia algumas das pontas soltas.

Super Drags apresenta de forma escrachada, porém sem diminuir a importância, questões do cotidiano e a luta da população LGBTQ+ dentro da sociedade, sendo os temas centrais a homofobia manifestada dentro de casa ou no trabalho, a cura gay, o preconceito existente dentro da própria comunidade e, é claro, autoaceitação. A animação traz espaço e representatividade para gays, lésbicas, bi, drags, brancos, negros, pobres, ricos, altos, baixos, gordos, magros e mostra como infelizmente o preconceito está enraizado na sociedade.

Em pleno 2018 em um Brasil com feridas expostas graças a intolerância, Super Drags provou apenas com o trailer que ainda não é produto para qualquer um, podendo assustar pessoas mais conservadoras  – ou de ego frágil – pela forma caricata de apresentar diversos problemas e soluções, ou mesmo deixar um leve amargo na boca com o plot twist do último episódio. Ainda assim, os produtores assumem o risco e colocam a cara no sol ao trazer a primeira animação brasileira distribuída pela Netflix com tema LGBTQ+. Bicha, a senhora é destruidora mesmo hein…

Às vésperas do Halloween, um dos feriados mais esperados nos EUA, a Netflix lançou O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina). Dos mesmos produtores executivos de Riverdale (guarde essa informação, pois ela é importante), a série é sombria e definitivamente para adultos, com clima e atmosfera completamente diferentes da série original dos anos 90.

A história acompanha Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), uma adolescente metade bruxa metade humana prestes a completar 16 anos, que se vê presa entre sua vida mortal e sua vida como serva do Lorde das Trevas. Ela mora em uma funerária/necrotério com suas tias, Zelda (Miranda Otto) e Hilda (Lucy Davis), e seu primo Ambrose (Chance Perdomo), que está em prisão domiciliar e não pode deixar a residência Spellman. Seus laços com o mundo mortal são seu namorado Harvey Kinkle (Ross Lynch) e suas melhores amigas Susie Putnam (Lachlan Watson) e Rosalind Walker (Jaz Sinclair).

Cada personagem é minuciosamente explorado e desenvolvido, com problemas reais e que nos aproximam a eles para aumentar a imersão na série. Do lado mortal, Rosa tem apenas mais algumas semanas de visão, por conta de uma doença hereditária que atinge apenas as mulheres de sua família. Harvey convive com um pai abusivo e violento, tendo apenas seu irmão mais velho como porto seguro. Susie é uma adolescente não-binária, que ainda não entende seu corpo e nem parece se sentir confortável nele.

Já do lado bruxo, os personagens também nos aproximam e se provam humanos. Zelda tem um instinto materno enorme, mesmo que demonstre de forma rude diversas vezes, e sofre por nunca ter tido um filho que fosse seu. Hilda se sente solitária e vive em romances e novelas de época, sempre na cozinha fazendo doces para compensar algo que falta em sua vida. Ambrose se sente solitário em sua prisão, não podendo reclamar por estar ali como consequência de suas próprias ações. E claro, Sabrina, uma protagonista extremamente carismática que nos envolve em sua angústia e divisão entre dois mundos que ela ama.

A série aborda a religião de forma magistral, podendo gerar alguns problemas e discussões – desnecessárias, devo adicionar – se mal interpretada. Usando a roupagem satanista, o produto critica a devoção cega em diversos momentos, sem nunca precisar apelar para expositividade escancarada ou falas redundantes. Forçar seus descendentes a seguir sua crença, obedecer ao seu “Deus” sem nem mesmo questioná-lo, tradições sem sentido que envolvem mortes desnecessárias e que são glorificadas até os dias de hoje. Estes são apenas alguns exemplos de como a série consegue criticar apenas gerando reflexão no espectador, um recurso extremamente inteligente nos dias de hoje.

Também é possível ver temas como empoderamento feminino, machismo, diferença social e racismo sendo tratados de forma sutil, estando no produto para quem quiser (ou conseguir) interpretá-lo e pegar essas pequenas dicas. Um grupo de garotas unidas para monitorar problemas na escola. Uma garota que resolve se vingar por uma amiga que sofreu, e essa vingança (em uma das cenas mais geniais de toda a temporada) é retirar a “masculinidade” dos agressores. Esta série é das mulheres, e ninguém pode dizer o contrário.

A cenografia consegue criar o mesmo clima de Riverdale (por isso a informação do primeiro parágrafo era importante). Uma cidade e pessoas que vivem nos dias de hoje, mas que dialogam claramente com as décadas de 50 e 60. Cabines telefônicas, restaurantes com cabines de poltronas que servem milk-shake e hambúrgueres. Figurino que mistura elementos da época e dos dias de hoje, com rendas decorando camisas sociais, minissaias ou vestidos com saiotes rodados e casacos grandes cobrindo tudo isso. E se você é fã de Riverdale, pode ter certeza que surpresas o aguardam em O Mundo Sombrio de Sabrina.

Um recurso inovador de fotografia pode ser percebido em diversas cenas onde a “magia” acontece, tendo uma espécie de vinheta cobrindo a tela nas extremidades que borra a imagem e dificulta nossa visualização, como se o espectador estivesse sob o efeito da magia. Tons mais quentes em momentos calmos no mundo mortal e tons frios em momentos tensos no mundo da magia. As cenas na floresta são assustadoras, muito semelhantes às vistas no filme “A Bruxa” (2016). Rituais, invocações e as próprias magias são mais sombrias e próximas a realidade por serem subjetivas, como bonecos de vodoo e palavras que causam alguma ação indiretamente. A magia aqui nada mais é do que a manipulação leve de alguns dos eventos já em curso.

Um dos personagens mais queridos e que o público também pediu foi Salem, o gato de Sabrina e seu familiar. Segundo a crença do universo de Sabrina, o familiar estabelece um elo mágico (relação psíquica estabelecida entre um humano e um animal) com uma bruxa ou bruxo, o protegendo e auxiliando no que for necessário. Diferente da série dos anos 90, Salem é compreendido apenas por Sabrina, se comunicando por meio de miados e leves ronronares. Isso pode decepcionar quem esperava as já conhecidas tiradas sarcásticas do personagem, mas foi uma escolha muito inteligente de direção e roteiro para o contexto estabelecido, dando um ar ainda mais sombrio para o animal e a série.

O Mundo Sombrio de Sabrina não é apenas uma série sobre satanismo, bruxaria, mulheres poderosas e instituições questionáveis. Também é divertida, cativante e em muitos momentos assustadora. Com um clima perfeito para uma maratona no Halloween, tem 10 episódios que variam de 55 minutos a 1 hora. Pode parecer muito, mas tenha certeza que todo o tempo gasto vale a pena, e pode ser comprovado com os 90% de aprovação que a série tem no Rotten Tomatoes.

Quem assistiu a 1ª temporada de “Punho de Ferro” (Iron Fist), série original da Netflix em parceria com a Marvel, com certeza ficou com um estranho gosto amargo na boca ao ver Danny Rand, interpretado por Finn Jones, nas telas. Isso porque o herói nada se parecia com os quadrinhos, com um temperamento explosivo, impulsivo, imaturo e com poderes pouco explorados. Erros escancarados no roteiro, como arcos de personagens incompletos, diálogos preguiçosos e lutas mal coreografadas, fizeram desta a série de qualidade mais mediana entre a parceria da rede de streaming e a Casa das Ideias.

A situação também não foi das melhores na série “Os Defensores” (The Defenders), que foi a união do Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro contra a organização do Tentáculo. Apesar do hype para esta série estar gigantesca, ela também deixou a desejar. E entre todos os heróis, novamente Danny era o menos interessante entre os quatro. Eis que a 2ª de Luke Cage, que contou com a participação especial de Finn Jones, deu um vislumbre das mudanças que o seu personagem sofreu, e isso já foi o suficiente para reacender a esperança no coração de quem acreditava em uma redenção da parte dos roteiristas. E quem acreditou na mudança se surpreendeu positivamente!

Com 3 episódios a menos que a temporada antecessora, cortando várias partes dispensáveis que apenas tomavam tempo de tela nos quase 60 minutos de cada capítulo e deixando o tudo mais dinâmico, 2ª temporada de Punho de Ferro trouxe de volta os personagens Joy Meachum (Jessica Stroup), Ward Meachum (Tom Pelphrey), Colleen Wing (Jessica Henwick), Davos/Serpente de Aço (Sacha Drawan) e a mais nova adição para a série, Mary Walker (Alice Eve).

A trama agora é muito mais simplista que anterior, que deixou diversos pontos em abertos ou mal explorados, principalmente com seus vilões. O tema principal se tornou a família e tudo gira em torno disso: Danny não consegue enxergar o mau que Davos, seu irmão de consideração, está fazendo a ele; Joy deseja se vingar de seus irmãos por todos os segredos em relação a seu pai; Ward tenta se reaproximar de Joy enquanto lida com problemas de drogas; e Colleen tenta saber mais sobre o seu passado ao mesmo tempo que tem dificuldades em enxergar o seu futuro ao lado de Danny.

A direção de todos os personagens é muito boa, porém é novamente Finn Jones que chama atenção por não haver identificação do público com o seu personagem, principalmente quando existe divisão de tela com o vilão. Ele tenta justificar os atos de Davos e uma aproximação que não faz mais sentido, se tornando extremamente infantil e irritante em algumas partes. E assim como as segundas temporadas de Jessica Jones e Luke Cage, o vilão tem poderes similares aos do herói, fazendo um contraponto entre o bem e o mal.

Os irmãos Meachum voltaram melhores, principalmente Ward, que tem uma ótima química com o personagem de Danny. Já Jessica Stroup trouxe uma Joy completamente diferente, fria, irônica e vingativa, porém, após seus segredos serem revelados ela volta a ficar morna  e deixa de agregar significativamente. Já o grande surpresa positiva da temporada é a personagem de Alice Eve, Mary Walker, que tem transtorno dissociativo de personalidade, ou seja, ela possui múltiplas personalidades. Enquanto Mary é uma mulher tímida e amável, Walker é fria, calculista e implacável até ter seu serviço completado. O final da personagem é interessante e nos deixa curiosos pelo seu retorno em um próximo ano.

É muito bom saber que a Netflix e a Marvel ouviu as reclamações dos fãs em relação às fracas cenas de ação da primeira temporada, ainda mais por ser uma série que tem as artes marciais tão vivas em sua essência. A escolha de Clayton Barber, conhecido por coordenar as lutas de Pantera Negra, para comandar as cenas de ação foi extremamente assertiva. E isso ficou em evidência, principalmente nas cenas de luta de Colleen no estúdio de tatuagem.

E falando em Colleen Wing, seu entrosamento com a detetive Misty Knight (Simone Missick), personagem regular de Luke Cage que faz uma ponta em Punho de Ferro, é bem interessante. Quem acompanha os quadrinhos sabe que a dupla Knightwing, também conhecidas como Filhas do Dragão, são personagens recorrentes nas HQs do Punho de Ferro. E se depender dos indícios deixados por elas, possivelmente teremos uma série exclusiva para as duas.

Em linhas gerais, 2ª temporada de Punho de Ferro possui algumas falhas, principalmente com o seu protagonista, mas consegue se redimir ao focar e fechar arcos dos personagens. Entre os principais acertos estão as diversas cenas de Kung Fu clássico e na adição Alice Eve para o elenco. As pontas soltas deixadas propositalmente e o final um tanto quanto inusitado são o suficientes para nos deixar com uma pulga atrás da orelha e pedir por uma 3ª temporada!

22 Milhas é o novo e quarto filme estrelado por Mark Wahlberg e dirigido por Peter Berg. A dupla, desde 2013 trabalhando junta, lança seu novo filme de ação/paranoia governamental repleto de agentes duplos, críticas mais profundas que uma colher à política externa americana e muitas explosões. O típico filme de ação, tiro, porrada e bomba. E nada disso seria problema se esses elementos fossem bem executados durante seus 94 minutos de duração, mas não é o que acontece. Nem de longe.

A trama é bastante simples, para não dizer simplória: James Silva, um agente de uma divisão secreta da CIA interpretado por Wahlberg, e sua equipe, que conta com as presenças femininas de Lauren Cohan e a ex-UFC Ronda Rousey, precisam transportar em segurança um informante de um país asiático fictício até um aeroporto, num trajeto de 22 milhas. Não é preciso dizer que a equipe encontra todas as dificuldades possíveis, já que aparentemente todo o país parece querer matar o personagem de Iko Uwais.

Durante a missão, o filme parece buscar, como se de propósito, atingir os maiores níveis já vistos de ação por ação, com tiroteios e sequências de luta insossas, mal feitas e mal editadas. Peter Berg mira um filme sério sobre as questões do militarismo moderno, mas consegue apenar acertar em clichês de filmes de espionagem e paranoia governamental em tempos de internet, com os personagens arrotando frases feitas como ‘Soldados não usam mais uniformes’ para apresentar agentes trabalhando de forma remota na frente de um computador.

As atuações, para piorar, também são niveladas por baixo. A de Mark Wahlberg, em especial, é de irritar até o mais tolerante espectador. Seu personagem, como somos informados durante os créditos iniciais – poucas vezes se viu um artifício tão preguiçoso para contar os antecedentes de um protagonista – é um supersoldado que sofre de transtornos de personalidade e hiperatividade. Em outras palavras, apenas para justificar a atuação de Wahlberg, o roteiro o define como um nervosinho capaz de dizer sacadas machistas e preconceituosas numa velocidade frenética de deixar qualquer rapper no chinelo.

O protagonista age como um completo babaca a todo momento, gritando com todos ao seu redor, menosprezando e humilhando colegas e superiores a todo momento. Impossível esperar a identificação do público por um personagem tão chucro assim em pleno 2018. Em uma cena, ele chega a atirar um bolo de aniversário de uma colega no chão.

Aliás, essa insistência em tentar dar um fundo pessoal a estes personagens, como no caso da agente vivida por Lauren Cohan, que conversa com sua filha e ex-marido através de um aplicativo de mensagens voltados a casais divorciados e que não permite brigas e xingamentos (sim, ainda estamos falando de um filme de ação), sai pela culatra e se transforma em uma das muitas e principais ruínas de 22 Milhas, falhando na tentativa de agregar qualquer profundidade à trama e ao desenvolvimento desses personagens.

A única coisa que parece não fracassar miseravelmente aqui é a escolha de Iko Uwais como intérprete do informante asiático. O ator indonésio, conhecido pelos ótimos filme de ação Operação Invasão 1 e 2 e ainda pouco explorado por Hollywood, confirma ser um dos melhores atores de artes marciais da atualidade e aparece como o único destaque positivo do longa. Suas cenas de luta corporal são de longe os pontos altos (ou menos baixos) de 22 Milhas. Porém, a direção pouquíssimo inspirada de Peter Berg e a edição e montagem desastrosas do filme jogam a ótima atuação física de Iko e as boas coreografias das lutas por água abaixo. São tantos cortes e o trabalho de câmera é tão ruim que mal se entende o que está acontecendo, quem bate em quem, e quando menos se percebe, a luta já acabou.

No mais, sobram violências gratuitas, diálogos que parecem ter sido escritos em cinco minutos, todos os clichês imagináveis vistos em filmes sobre agentes da CIA – se você chutou espiões russos e menções ao 11 de setembro, acertou – e um final feito apenas para abrir a possibilidade de uma sequência que, com sorte, jamais será feita.

Em 1983, o  mundo se chocou com a história da norte-americana Tami Oldham, que passou 41 dias à deriva em alto mar após o barco em que estava com seu noivo, o inglês Richard Sharp, naufragar durante a passagem do furacão Raymond. A história de superação virou livro escrito pela própria Tami, e agora foi adaptada ao cinema pelo diretor islandês Baltasar Kormákur com o filme Vidas à Deriva.

Tami é uma jovem viajante que, durante sua passagem pelo Taiti, na Oceania, conhece um velejador inglês. Os dois logo se apaixonam e após poucos meses de convivência se tornam noivos. Depois de aceitarem uma proposta financeira pela tarefa de levar um barco do Taiti para San Diego, na Califórnia, o casal é pego de surpresa por uma das tempestades mais fortes da história, ficando à deriva em alto mar. Com pouca água e comida e sem nenhuma possibilidade de comunicação com o continente, o casal inicia, então, sua luta pela sobrevivência.

Filmes sobre humanos em situações extremas na natureza podem se tornar cansativos para o público muito rapidamente. A forma encontrada por Kormákur, conhecido por dirigir filmes de tragédias reais, para evitar esse problema, entretanto, é com certeza o grande trunfo do longa. O filme começa com o casal logo após a tempestade, no primeiro dia à deriva, e segue alternando, até o fim, os 41 dias de naufrágio com os acontecimentos anteriores. Assim, com a narrativa de forma não-linear, aos poucos vamos conhecendo a história do casal e como os dois acabaram nessa situação extrema, ao mesmo tempo em que assistimos à luta pela sobrevivência.

Com isso, o filme se divide entre um drama de sobrevivência e uma história de amor. Entre sonho e pesadelo. E já que também há romance, a escolha pela atriz Shailene Woodley, que interpreta Tami, se mostra acertada – a atriz ficou conhecida mundialmente pela atuação no romântico A Culpa é das Estrelas -; Shailene se destaca interpretando uma jovem mulher decidida e disposta a se levar ao limite para garantir sua sobrevivência. O ator inglês Sam Clafin, de Jogos Vorazes, intérprete de Richard, o noivo, também não está mal, mas acaba ofuscado pela colega. 

O romance do casal, contudo, é morno, muito por conta do roteiro, incapaz  de fugir do óbvio, ainda que não apele para o sentimentalismo barato. A trilha sonora também não empolga. O grande momento do filme é a sequência da tempestade, filmada com um realismo inesperado para um filme como esse. Antes do fim, que com certeza pode levar os mais sensíveis às lágrimas, ainda há tempo para um plot twist, muito mais interessante do que propriamente chocante.

No fim, Vidas à Deriva se revela um filme decente, capaz de entregar mais do que a aparência de ‘filme piegas baseado em best-seller ainda mais piegas’ pode sugerir, surpreendendo quem não é muito chegado a esse tipo de história.

Divulgação/Diamond Filmes

 

Estreia hoje (02), nos cinemas brasileiros, “O Nome da Morte”, filme inspirado no livro homônimo do jornalista Klester Cavalcanti, que conta a trajetória de um matador de aluguel, Júlio Santana, que confessou em entrevista ter assassinado 492 pessoas. Júlio foi preso uma única vez, tendo permanecido apenas uma noite na cadeia. Parece ficção, mas é vida real, e uma realidade vivida no Brasil e pouco explorada pela mídia.

O Nome da Morte é dirigido por Henrique Goldman (Jean Charles), protagonizado por Marco Pigossi, e reúne no elenco André Mattos, Fabíula Nascimento, Matheus Nachtergaele e Martha Nowill, com uma trama marcada pela violência e personagens de caráter duvidoso.

Como você imagina a personalidade de um matador de aluguel? Um homem perverso, psicopata e que tem sede por morte e vingança? Seria assim se baseado nos livros e filmes de serial killers, mas o longa O Nome da Morte quebra paradigmas ao falar de um homem amoroso, religioso, que se culpa por seus pecados – que não são poucos –, um pai de família, caseiro, bem-humorado e carinhoso, e que, sim, é um matador de aluguel.

Não parece que estamos falando da mesma pessoa, isso porque Júlio Santana não faz isso por hobbie; as circunstâncias o levaram a esse rumo, e com o passar do tempo, ele aprendeu a encarar isso como profissão para que pudesse dormir à noite.

Júlio era adolescente quando foi levado do interior para cidade grande para seguir os passos do tio Cícero (André Mattos), que era policial. A falta de experiência, de acesso à cultura e à educação o fizeram ser guiado por seu tio que tinha essa vida dupla: policial e pistoleiro.

Nesse momento, precisamos enfatizar a grandiosa atuação de Marco Pigossi, que entrou no personagem e conseguiu se desconstruir de seus valores para compreender Júlio. A dor, emoção e ingenuidade que ele conseguiu demonstrar, são as mesmas emoções sentida quando lemos o livro.

A atuação de André Mattos como tio Cícero deixa a desejar e traz uma sensação de vilão clichê de novela das 9h. Claro que sabemos que cada um faz uma leitura do personagem e esse foi o papel que ele entregou. Particularmente não agradou.

Fabíula, quando aparece como Maria, esposa de Júlio, dá outro show de atuação e que abre outros diálogos como a falta da voz feminina, a submissão, a aceitação, que não são apenas “pautas da vez” na mídia, mas assuntos urgentes e necessários há tempos. Fabíula é fiel à personagem e emociona.

A fotografia traz grandes registros da riqueza brasileira: a natureza faz o contraste com o contexto da trama onde tudo é camuflado com a beleza do lugar. Já a trilha sonora incomoda em alguns momentos com exageros, exaltando o suspense e entregando os grandes acontecimentos.

Sabemos que quando um livro passa por essa transição para se tornar um filme, o roteiro precisa desapegar de várias partes, algumas essenciais para construção do personagem, mas que se entrassem na trama poderiam se tornar uma minissérie. Para quem não leu o livro, Júlio tem as histórias do Araguaia e Serra Pelada, que são emocionantes, assustadoras e valeriam a pena serem vistas, mas temos que entender.

O filme traz uma crítica sutil à pistolagem no Brasil e deixa claro que a prática desse serviço é um conflito político e social. O livro estabelece uma conexão entre pistolagem e deterioração da esfera pública na região, e também fala sobre o modo como o campo jurídico processa esses conflitos, vide que Júlio foi acusado de apenas uma morte e teve um crime encomendado por um prefeito.

A Carta Capital publicou no início deste ano um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT), sobre os conflitos no campo, apontando 71 assassinatos, uma crescente onda que aumenta continuadamente desde 2015.

Como já colocado anteriormente por Klester na coletiva de imprensa sobre o filme, Marielle Franco e o prefeito de Santo André são casos de pistolagem, fora tantos outros que temos conhecimento.

Trazer tais críticas e levantar essas discussões na trama não é tarefa fácil, então Goldman preferiu uma trajetória mais rasa dando ênfase na família, no amor e na vida do personagem.

Mesmo sentindo falta de alguns pontos é bom ver esse marco, uma historia real contada na perspectiva de um jornalista se tornar filme. Klester Cavalcanti é sempre uma grande inspiração. Vale a pena conferir o longa e, mais ainda, ler o livro.