Críticas

“Meu Pai” acerta ao comover sem apelar e com Anthony Hopkins inspirado

“Meu pai”, do diretor estreante Florian Zeller, não está na corrida pelas principais premiações do cinema à toa. Com edição e montagem competentes e criativas, a obra chama a atenção por nos colocar dentro da cabeça de uma pessoa com o Mal de Alzheimer, se consagrando como o melhor filme dos últimos tempos a tratar da doença e de outros temas como o definhamento da mente humana e de como a sociedade trata seus cidadãos mais velhos.

Comovente sem ser apelativo, o filme adapta a peça de teatro escrita pelo próprio Zeller – e que já foi interpretada no Brasil –, sobre um idoso com Mal de Alzheimer (Anthony Hopkins) sob os cuidados da filha (Olivia Colman).

Como poucas peças de teatro adaptadas para o cinema, “Meu Pai” consegue fazer a tradução para a sétima arte de maneira muito correta, fazendo com que quase não percebamos os seus 97 minutos de duração, além de que tudo se desenrole praticamente em um único local, e com pouquíssimos personagens. Parece algo simples, mas muitas obras que fazem a viagem dos palcos para as telas acabam se tornando arrastadas, praticamente sendo teatro filmado, quase sempre pela dificuldade de criar uma dinâmica de edição e atuação que funcionem para o cinema. E são justamente esses dois pilares nos quais “Meu Pai” ganha grande destaque.

A começar pelo mais visível: as atuações de Anthony Hopkins e Olivia Colman, ambos indicados ao Oscar e ao Globo de Ouro, comovem e convencem como o idoso cuja mente começa a definhar, embora se recuse a aceitar, e como a filha dedicada percebendo que seu velho pai já não está mais ali, respectivamente.

Enquanto a grande atuação de Olivia Colman neste filme possa não surpreender, uma vez que a atriz de 47 anos vive grande fase, tendo inclusive vencido seu primeiro Oscar recentemente, por “A Favorita” (2018),  a de Anthony Hopkins, por sua vez, está causando grande espanto em quem assiste “Meu Pai”. Não porque se considere o veterano ator, de 83 anos, um intérprete ruim, mas porque há anos, talvez décadas, ele não era visto tão bem em um papel. Embora não vivesse uma decadência, o ator, vencedor do Oscar, vinha numa espécie de ‘piloto automático’ há um bom tempo, algo até comum na vida de um ator experiente, participando de filmes não tão bons, em papéis não tão à sua altura.

Mas aqui Hopkins entrega uma de suas atuações mais sinceras e sensíveis. Nos faz sentir na pele a fragilidade de uma pessoa tentando entender o que acontece em sua volta, numa realidade em que o que é dito uma hora é repetido ou negado no dia seguinte, e a passagem e o conceito de tempo deixam de fazer sentido. Pode-se até cometer o engano de acreditar que, justamente por ser idoso como o próprio personagem, a atuação tenha vindo de forma fácil. Porém, interpretar tão bem alguém cujas faculdades mentais estão sendo perdidas ao poucos, sem obviamente jamais ter passado por algo assim, com certeza não é nada simples.

Mas o grande trunfo do filme realmente está na edição, cuja escolha é não apenas nos mostrar como é a realidade de uma pessoa nesta situação, mas nos inserir nela. Durante todo o filme, nos questionamos o que está acontecendo, se o que foi dito realmente foi dito, se pessoas que aparecem realmente estão ali, todas os mesmas aflições pelas quais o personagem principal passa. Com essa escolha, o filme foge de lugares comuns que provavelmente tornariam o filme mais fácil, mas bem menos atraente, entregando-o ao drama apelativo. A sequência final, talvez, seja o único momento em que o filme não resiste ao clichê, como se pegasse o espectador pela mão para explicar, caso ele não tenha entendido, tudo o que aconteceu.

“Meu Pai” é definitivamente um dos filmes mais interessantes da temporada de premiações do cinema. Entretanto, corre o risco de abocanhar o Oscar apenas em categorias técnicas, já que nas categorias de melhor filme, ator e atriz coadjuvante há outros concorrentes de peso. Seria uma pena, principalmente para Hopkins e seu grande ‘retorno’.

Jornalista e cinéfilo.

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