Críticas

Crítica | Bom Dia, Verônica

“A culpa não é sua, mulher!”. A frase dita à escrivã Verônica Torres (Tainá Muller), após não conseguir impedir uma mulher vítima de estupro de se suicidar em menos de 10 minutos do episódio piloto, dita qual é a mensagem e o ritmo frenético e envolvente da série brasileira “Bom Dia, Verônica”, adaptação do livro homônimo de Andrea Killmore (pseudônimo de Ilana Casoy e Raphael Montes), disponibilizada pela Netflix.

A cena mexe com Verônica – e certamente mexerá com você. Mas, aqui, não vou te pedir calma, o que vem a seguir não facilita em nada: os comentários machistas de seus colegas de trabalho, como os de seu padrinho e também delegado Wilson Carvana (Antônio Grassi), faz a frase de Verô soar como um soco no estômago: “não estou acreditando que você vai taxar a mulher de louca”.

Claramente essa fala, como tantas outras disparadas pela protagonista, poderia soar apenas como um efeito, mas isso não acontece. Infelizmente, essa e tantas outras frases ainda precisam ser ditas diariamente para explicar o óbvio: a culpa não é da mulher, a culpa não é da vítima. Isso faz com que todas as situações em que elas foram colocadas soem ainda mais reais. “Seja lá o que tenha acontecido, a culpa não é sua”.

Após uma entrevista dada à imprensa querendo encontrar mulheres que tenham sido atacadas pelo mesmo agressor ou estejam necessitando de ajuda, Verônica cruza sua vida com a de duas mulheres. A primeira é Tânia Menezes (Aline Borges), outra vítima do mesmo homem que vai à delegacia em busca de ajuda. Enquanto os outros policiais, como Anita (Elisa Volpatto), estão mais preocupados em saber o histórico de Tânia e apontar supostas justificativas para culpa-la, como saber se ela sempre sai com homens que ela conhece em sites de relacionamento, Verô busca maneiras de se aproximar da vítima e extrair dela as informações necessárias para encontrar o suspeito.

A outra mulher a entrar em contato com a escrivã é Janete Cruz (Camila Morgado), que sofre violência doméstica de seu marido Cláudio Brandão (Eduardo Moscovis). A dupla, que tem a história contada em paralelo com a de Verônica, chama atenção desde o primeiro instante. E, com o passar dos episódios, a aparição do casal vai se tornado tanto angustiante quanto aterrorizante.

Logo após Janete contar sua história à Verô, em uma cena marcante, a escrivã promete ajudar mulher a sair daquela situação. E quanto mais Verônica investiga os dois casos, mais ela se afunda em uma cama de gato armada para ela, e, ao mesmo tempo se conecta com seu passado, gerando grandes consequências para quem a cerca. Mas isso não a impede de fazer o que é certo; a personagem é dona de um enorme ímpeto de justiça e empatia, e já nos primeiros episódios você estará torcendo por ela.

A série tem o mérito de prender o espectador do início ao fim, trazendo ganchos entre um episódio e outro, se calcando em grandes reviravoltas, mistérios e muita ação, além, é claro, do trabalho e entrega dos atores, em especial do elenco principal. Taina Muller brilha como Verônica, mas é Camila Morgado que rouba a série para ela. Seu trabalho corporal é incrível e seus marcantes olhos azuis se tornam dúbios e trazem toda a tristeza que personagem carrega no peito. Ela não precisa falar para ser ouvida, clamando por socorro apenas com seu olhar, e isso fica claro no momento em que Janete reencontra sua irmã Janice Cruz (Marina Provenzzano), em um episódio muito marcante.

Camila Morgado faz um trabalho ímpar na série, e ao lado de Eduardo Moscovis protagoniza algumas das melhores cenas, como o jantar do primeiro episódio ou a dança desconfortante do casal ao som de “É o Amor”, de Zezé Di Camargo e Luciano, mostrando que agressões não são apenas físicas. E esse emaranhado de ações, gestos e falas, que vão de pequenas faíscas a grandes explosões, nos deixa angustiados e aflitos ao simples olhar ou ao mero toque passivo-agressivo dado por Moscovis. Mas não poderia ser diferente; uma atuação exacerbada talvez imputasse ao espectador que a violência é apenas o grito ou contato físico – o que está longe de ser a realidade. Mas Brandão demonstra amor à Janete, o que torna essa relação ainda mais tóxica, já que a personagem acredita com veemência que as atitudes do marido são, de alguma forma, sua culpa.

A fotografia da série reforça o ar de solidão e tristeza dos personagens, retratando São Paulo como uma verdadeira Selva de Pedra, que ou oprime ou é oprimida. Já a trilha sonora é um espetáculo a parte, capaz de unir gêneros como pagode, sertanejo e rock em momentos tão precisos e certeiros que a transforma em uma personagem, que hora cala, hora empodera quem está em cena. O destaque aqui fica para “Maria da Vila Matilde”, de Elza Soares, que está intrinsicamente ligada ao DNA da série e todas suas nuances.

Mas, nem todas as relações entre os personagens são assim: Anita tem uma raiva gratuita de Verônica, que muitas vezes soa mais exagerada do que realmente seria necessário; ou Nelson (Silvio Guindane) que aparece em momentos chave para ajudar ou flertar com a protagonista como uma forma de fazer as coisas ao redor dela engrenarem, mas sem se aprofundar de fato em uma amizade. Mas isso não tira a qualidade da obra!

Um dos pontos chaves para a qualidade do enredo de Bom Dia, Verônica, é a participação de Ilana Casoy e Raphael Montes, os escritores do livro, como roteiristas. Isso permitiu que diversas adaptações fossem feitas, afinal, o conteúdo está migrando para outra mídia que utiliza de outras linguagens, mas sem descaracterizar a mensagem que eles deram à obra original.

Bom Dia, Verônica não é só um thriller policial, um drama familiar, ou conto de um serial killer brasileiro, mas sim um copilado de histórias reais e fictícias, de tantas Tânias, Janetes e Verônicas, levando uma mensagem que deve ser exclamada aos quatro cantos. E, se em pleno século XXI, você ainda acredita que a culpa é da vítima, encare essa crença como uma doença e a série como um remédio; uma pílula que deverá ser tomada 8 vezes, initerruptamente, a cada 42 minutos, até você entender o quanto está equivocado…

Escreva um Comentário

13 − dez =