Críticas

Crítica – Adultos

Recentemente, dei início a leitura da obra “Adultos”, de Emma Jane Unsworth, lançado pela Intrínseca, que prometia uma abordagem de forma inteligente e descontraída sobre uma das vilãs da contemporaneidade: a ansiedade digital.

A busca incessante por likes, pela vida ideal, corpo perfeito, viagem dos sonhos, relacionamento de filme etc., tudo representado por meio de cliques ou recortes de momentos publicados na internet, foi a abordagem principal dessa obra. A proposta da autora, apresentando as desventuras de uma mulher em meio às pressões da era virtual foi inteligente, principalmente no cenário em que nos encontramos.

Inicialmente, me deu receio de ler, pois me identificava com a sinopse, não totalmente, mas com uma parcela dessa série de catástrofes na vida da protagonista Jenny McLaine. Foi então que o resumo me atiçou para uma leitura e possível aventura de 400 páginas.

“Adultos” apresenta a relação da protagonista Jenny McLaine, de 35 anos, com as redes sociais. Entre os atributos apresentados inicialmente, ela tem um namoro invejável com um fotógrafo famoso, casa própria e carreira de sucesso, escrevendo para uma coluna de uma revista on-line super descolada sobre feminismo. Essa combinação é o match perfeito para uma vida regada de likes.

Mas tinha um detalhe: ela não era feliz. A vida era ideal como muitos almejam, mas no fundo não passava de relações supérfluas e atitudes guiadas pela aprovação de quem a seguia nas redes sociais.

Após identificar características desse vício incessante pela curtida alheia, uma série de fatos faz com que sua vida entre em colapso: infelicidade no trabalho, término do relacionamento e o fato da compulsão e ansiedade digital. É então que a protagonista segue sua busca pela maturidade em meio às constantes pressões sociais em que as mulheres são submetidas.

A expectativa era alta, porém, o estilo de escrita não me prendeu no início. Foi um livro que me trouxe sensações controversas e já explico o porquê. Um dos pontos que cativam uma leitura, além da narrativa, é a conexão com os personagens, em especial com o protagonista. E apesar de me identificar com aspectos da jornalista que vive na era da ansiedade digital e sente isso na pele, ela tem atitudes que causam mais irritação do que compaixão. Nesse momento, você tem dois caminhos: desistir da personagem, ou se aprofundar ainda mais para ver até que ponto ela pode definhar ou aprender com isso. E eu continuei.

O que me causou contradição nos sentimentos foi que no fundo, a proposta da autora foi atingida, pois eu senti inquietação ao ler. Talvez, eu só não tenha tido empatia pela personagem. Para uma protagonista de 35 anos, a leitura me remeteu a aspectos de alguém no auge da adolescência. E hoje, aos meus 27 anos, por mais que eu me identifique com alguns desses problemas, a experiência e a maturidade prevalecem. Você pode até achar: ah, mas é ficção.

Eu tenho plena consciência disso, mas o fato é que a história tinha uma proposta específica, que incluía uma narrativa inteligente. Temos referências que provocam essa inquietação e que, de certo modo, provocam um pensamento crítico,  como “Black Mirror”, “O Dilema das Redes”, entre outros.

Voltando a obra, a narrativa é constituída por mensagens, e-mails, diálogos de scripts, interações em redes sociais e relatos íntimos. Entre posts, likes e exclusão de um post que talvez não tenha ficado tão legal assim, a vida repleta de incertezas da protagonista lança um olhar sobre o abismo que muitas vezes existe entre o que as pessoas expõem na internet e a vida real, e os desdobramentos, que pode desencadear traumas e impactar em um quadro psíquico.

A obra foi desenvolvida com o intuito de criticar o comportamento compulsivo em relação às redes sociais, dando face ao pior lado do digital: a vida real que as pessoas se negam a viver e o dano que essa alusão é capaz de causar. A comparação, a obsessão e o ato compulsivo por curtidas e seguidores, são pontos que nos fazem pensar para onde a sociedade está caminhando, colocando em cheque a saúde mental.

“Adultos” é uma leitura válida, mas esteja certo de que vai odiar a protagonista, querer brigar com ela e fazê-la acordar. O questionamento que fica disso tudo é: será que não estamos todos caminhando nessa mesma direção?

O digital não é de todo ruim, muitas coisas boas podem ser encontradas: amizades, relacionamentos, conexões, histórias para inspirar de forma positiva, sem comparação e sem cobrança. O equilíbrio é necessário e essa é a lição que fica.

E para finalizar com um sentimento coletivo, vou parafrasear uma filosofa contemporânea viral da internet: “quer me ver feia vem aqui em casa”.

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