Tarantino cria seu conto de fadas do cinema com “Era Uma Vez em… Hollywood”

O nono longa de Quentin Tarantino, “Era uma vez em… Hollywood”, é uma declaração de amor do diretor ao cinema e, em especial, às obras que mais influenciaram o seu estilo único, que desde os anos 1990 vem o consagrando como um caso raro de sucesso entre público e crítica.

Em suas quase três horas de duração, o filme é um tour pela velha Hollywood guiado por Tarantino, que cria seu conto de fadas (o nome Era Uma Vez não poderia ser mais adequado) ambientado em uma época de efervescência cultural na qual o cinema passava pelas mudanças mais drásticas de sua jovem vida e começava a ser moldado do jeito que o conhecemos hoje: a década de 1960.

O filme acompanha três dias na vida dos três protagonistas, Rick Dalton (DiCaprio), um ator de western decadente; Cliff Booth (Brad Pitt), dublê, faz-tudo e amigo de Rick; e Sharon Tate (Margot Robbie), esta uma personagem real, atriz casada com o diretor Roman Polanski e assassinada pelo séquito de Charles Manson em 1969. A forma com que Tarantino nos apresenta a história de cada um desses três personagens é com certeza a principal característica do filme. Devagar, sem o compromisso de envolvê-los em uma premissa ou em conflitos propriamente ditos e conferindo ao filme um caráter quase episódico, o diretor e roteirista leva os personagens de um lado ao outro, passando por histórias vividas por eles, como uma luta do personagem de Pitt com Bruce Lee no set de filmagem da série “O Besouro Verde” e uma ida ao cinema de Sharon Tate para assistir ao próprio filme.

Durante todos esses pequenos episódios que compõem o filme, até a parte final na qual Tarantino finaliza seu conto de fadas com sua reinterpretação revisionista da chacina encomendada por Charles Manson e que resultou na morte brutal de Sharon Tate, o cineasta presta homenagens e mais homenagens a dezenas de filmes da velha Hollywood, em referências e mais referências.

Há quem venha achando o filme arrastado e entediante, e o revisionismo de Tarantino, principalmente em relação à maneira como retrata alguns personagens reais, como o astro das artes marciais Bruce Lee, tem causado polêmica, com direito a farpas disparadas ao diretor pela filha do ator, que considerou o retrato do pai desrespeitoso. Aparentemente, o diretor usou toda a sua influência e respeito conquistados ao longo dos quase 30 anos de carreira para criar uma obra bastante pessoal e livre de amarras de estrutura convencional, sem precisar mais se provar como um cineasta autoral. O resultado naturalmente divide opiniões quase sempre extremas. Ame ou odeie.

Mais comedido em relação à violência gratuita (apenas três pessoas morrem nesse filme), tão presente em toda a sua obra, Tarantino parece ter se dedicado como nunca a criar protagonistas com os quais se importa e trata com muito carinho. Cliff Booth, o dublê e peão de Rick Dalton, tem um quê de melancolia, apesar da interpretação de Brad Pitt ser limitada e muito parecida com outros personagens interpretados pelo ator antes. O personagem também funciona claramente como uma homenagem de Tarantino à classe dos dublês, heróis anônimos presentes no cinema desde que a sétima arte ainda dava seus primeiros passos.

Já Rick Dalton, muito bem interpretado por DiCaprio, representa o drama vivido por muitos atores durante a metade do século XX, em uma época em que o cinema passou por drásticas mudanças fazendo muitos artistas perderem a barca de uma nova era. Antes um ator de sucesso em uma série de western, o personagem arrisca uma carreira nos filmes, que não decola e o deixa no ostracismo, relegado a pequenas pontas em séries de TV, sempre como o vilão. Até que surge a oportunidade de um recomeço no cinema italiano, assim como aconteceu (e deu certo) com Clint Eastwood.

Mas é no retrato de Sharon Tate que Tarantino baseia seu faz de conta. A atriz, assassinada brutalmente quando começava a brilhar, vive uma nova história pela visão de Tarantino, uma história que o diretor e todos nós preferíamos que fosse a real, e cujo final nos faz sentir confusos, melancólicos e empolgados ao mesmo tempo, como só o cinema, tão admirado e reverenciado por Tarantino, é capaz.

 

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Autor: Lucas Menoita

Sou jornalista, cinéfilo, são-paulino e faço o melhor miojo do Brasil

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