Super Drags: conheça a primeira animação brasileira da Netflix

Close, lacração e purpurina: estas três palavras sintetizam um pouco do que é apresentado em “Super Drags”, a animação brasileira produzida pela Netflix voltada ao público adulto, que tem causado grande repercussão nas mídias sociais desde o trailer até o lançamento dos seus cinco episódios.

É importante ressaltar que esta definitivamente não é uma animação para crianças. Diferente de outros desenhos adultos como “Os Simpsons”, que trabalha com uma linha tênue entre subjetividade e humor ácido – em especial os episódios mais antigos –, Super Drags tem o exagero em sua essência, seja ressaltando as genitálias de seus personagens, espalhando objetos com formato de pênis a cada cena, utilizando muitos palavrões ou mesmo apresentando um monstro gigante criado à partir de uma orgia de milhares de pessoas.

A história gira em torno das Super Drags, título dado ao alter-ego superpoderoso de três funcionários de uma loja de conveniência na cidade fictícia de Guararanhém. Cada um deles possui características muito particulares: Patrick é sensato e inteligente, tido como o líder do grupo ao se transformar em Lemon Chifon; Ralph chama atenção por toda sua delicadeza, apesar do seu tamanho, e pelas referências ao universo otaku, sempre disposto a ajudar os seus amigos ao se transformar em Safira Cyan; já o terceiro e último integrante – muito barraqueiro, diga-se de passagem – é Donizete, que protagoniza algumas das melhores cenas do desenho, tanto no local onde trabalha quanto montado como Scarlet Carmesim.

A série abre um leque de referências muito grande, podendo ser difícil encontrar todas elas assistindo apenas uma vez. Algumas ficam mais visíveis, como a semelhança com  “As Meninas Superpoderosas”, seja pela representação das cores de cada uma, pelo feixe de luz deixado no céu, ou pela singularidade no comportamento das personagens – a inteligente, a esquentada e a delicada. É impossível também não lembrar de “Os Powers Ranges” e seu famoso bordão “é hora de morfar”, quando os personagens deixam de ser simples civis e se transformam nas drags gritando “é hora de montar”. Já o momento da transformação, que é muito brilhante e coreografada, remete a “Sailor Moon”.

Entretanto, é de “Três Espiãs Demais” que Super Drags mais bebe da fonte. Ao sinal de qualquer problema, elas são acionadas por Vedete Champagne, a líder de uma organização secreta dedicada a ajudar as gays necessitadas, e seu robô Dild-o para resolverem os mais diversos tipos de problemas. Sendo acionadas pelo gaydar ou sugadas por uma TV, é fácil fazer uma conexão entre os desenhos.

Um ponto positivo para a série é a sua dublagem excepcional, que conta com nomes como Sérgio Cantú (Patrick),  Wagner Follare (Ralph) e Fernando Mendonça (Donizete), e pelas brasileirices apresentadas, indo da grávida de Taubaté ao pajubá – olá, Enem 2018 –, passando por Ana Carolina, Seu Peru e Hebe Camargo. Já a trilha sonora fica por conta da cantora Pabblo Vittar, que provou ter um pezinho na atuação e tem uma participação significativa nos episódios dando voz à Goldiva, uma celebridade mundial no mundo musical que representa  a comunidade LGBTQ+ na série.

Os antagonistas, que também não ficam de fora do exagero ao tratar de homofobia e preconceito, são o Profeta Sandoval Pedroso, um fanático religioso da Igreja Gozo do Céu, e Lady Elza, uma cantora Drag que deseja chupar o highligth (a energia vital) de todas as gays e desbancar a Goldiva.  E é na construção de ambos que a série dá uma ligeira derrapada e perde a fluidez entre a interação de vilões e heróis, principalmente no último episódio. Um capítulo mais introdutório de Sandoval e Lady Elza e explicações mais palpáveis de suas ações possivelmente fecharia algumas das pontas soltas.

Super Drags apresenta de forma escrachada, porém sem diminuir a importância, questões do cotidiano e a luta da população LGBTQ+ dentro da sociedade, sendo os temas centrais a homofobia manifestada dentro de casa ou no trabalho, a cura gay, o preconceito existente dentro da própria comunidade e, é claro, auto aceitação. A animação traz espaço e representatividade para gays, lésbicas, bi, drags, brancos, negros, pobres, ricos, altos, baixos, gordos, magros e mostra como infelizmente o preconceito está enraizado na sociedade.

Em pleno 2018 em um Brasil com feridas expostas graças a intolerância, Super Drags provou apenas com o trailer que ainda não é produto para qualquer um, podendo assustar pessoas mais conservadoras  – ou de ego frágil – pela forma caricata de apresentar diversos problemas e soluções, ou mesmo deixar um leve amargo na boca com o plot twist do último episódio. Ainda assim, os produtores assumem o risco e colocam a cara no sol ao trazer a primeira animação brasileira distribuída pela Netflix com tema LGBTQ+. Bicha, a senhora é destruidora mesmo hein…

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