Carta à imprensa brasileira

Cara imprensa,

Sou só uma estudante de jornalismo. Não trabalho em redação ainda, escrevo sobre áreas completamente alheias à política e, sinceramente, não tenho interesse em discutir sobre isso com as pessoas do meu convívio, ainda mais considerando a situação em que nosso país está. Mas há algum tempo observo uma postura na cobertura jornalística brasileira que me incomoda e muito.

Quando entrei na faculdade, tinha aquela visão clichê de que jornalistas eram agentes da justiça e liberdade de expressão, totalmente imparciais. A primeira coisa que o curso e uma das melhores professoras que eu já tive me ensinaram foi que a imparcialidade é impossível no nosso ramo de atuação; ela foi brilhante ao ressaltar algo que estava bem embaixo do nosso nariz.

A partir do momento que você seleciona o conteúdo que entra em um texto, edita uma entrevista ou escolhe as pautas que vão ser tratadas na redação, já está deixando de ser imparcial. Quando escolhe a forma de tratar um assunto, escolhe seus entrevistados e decide que informações pode deixar de fora. Quando monta a pirâmide invertida e organiza as informações (que, relembrando, você selecionou) e as classifica em ordem decrescente.

Quando eu era criança, muito antes de pensar no que ia fazer para o resto da minha vida, a senhora minha mãe me ensinou que toda história tem três lados: o de uma pessoa, o de outra e a verdade. Ela disse que aprendeu isso apanhando muito como advogada, quando sentia dó de um cliente que acabava a comprando com uma história e depois alguma mentira acabava vindo à tona. Nunca pensei que algo assim poderia ser útil na minha profissão também.

Unindo os dois aprendizados, cheguei à conclusão de que a imprensa brasileira está sofrendo do crônico mal da necessidade de constantemente se posicionar politicamente, mesmo que de forma disfarçada. Quando seu jornal escolhe poluir a imagem de um candidato específico por um deslize que ele cometeu, por menor que ele seja, não é um erro. Erro é não fazer isso com todos os outros que também cometeram (e cometem) deslizes.

Se o dever do jornalista é informar de forma justa e imparcial, por que não estamos fazendo isso? Por que as direções dos veículos escolhem um dos lados da história para contar e não a verdade, como está nas bases do nosso ofício? Por mais jovem que eu seja, entendo que muitas vezes perguntas simples possuem respostas complexas, e soluções não aparecem do dia para a noite.

Para que algo aconteça, é preciso mudar todo um sistema. Abandonar políticos de estimação e expor abusos e falhas vindas de todos os lados e pessoas, independente de sua lealdade particular ou corporativa. A justiça e a mudança só irão acontecer quando percebermos que viver em um país de privilégios fortalece direta e indiretamente a corrupção de que tanto reclamamos.

A mudança apenas irá acontecer quando permitirmos. Por isso, como estudante com apenas um ano de curso pela frente, apelo nesta carta para todos os meus colegas de profissão: permitam e abracem as mudanças. Por vezes elas não vêm para desonrar as tradições e aprendizados estabelecidos pela sua experiência do ramo, e sim para acrescentar a elas.

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