Crítica: O Nome da Morte

Estreia hoje (02), nos cinemas brasileiros, “O Nome da Morte”, filme inspirado no livro homônimo do jornalista Klester Cavalcanti, que conta a trajetória de um matador de aluguel, Júlio Santana, que confessou em entrevista ter assassinado 492 pessoas. Júlio foi preso uma única vez, tendo permanecido apenas uma noite na cadeia. Parece ficção, mas é vida real, e uma realidade vivida no Brasil e pouco explorado pela mídia.

O Nome da Morte é dirigido por Henrique Goldman (Jean Charles), protagonizado por Marco Pigossi, e reúne no elenco André Mattos, Fabíula Nascimento, Matheus Nachtergaele e Martha Nowill, com uma trama marcada pela violência e personagens de caráter duvidoso.

Como você imagina a personalidade de um matador de aluguel? Um homem perverso, psicopata e que tem sede por morte e vingança? Seria assim se baseado nos livros e filmes de serial killers, mas o longa O Nome da Morte quebra paradigmas ao falar de um homem amoroso, religioso, que se culpa por seus pecados – que não são poucos –, um pai de família, caseiro, bem-humorado e carinhoso, e que, sim, é um matador de aluguel.

Não parece que estamos falando da mesma pessoa, isso porque Júlio Santana não faz isso por hobbie; as circunstâncias o levaram a esse rumo, e com o passar do tempo, ele aprendeu a encarar isso como profissão para que pudesse dormir à noite.

Júlio era adolescente quando foi levado do interior para cidade grande para seguir os passos do tio Cícero (André Mattos), que era policial. A falta de experiência, de acesso à cultura e à educação o fizeram ser guiado por seu tio que tinha essa vida dupla: policial e pistoleiro.

Nesse momento, precisamos enfatizar a grandiosa atuação de Marco Pigossi, que entrou no personagem e conseguiu se desconstruir de seus valores para compreender Júlio. A dor, emoção e ingenuidade que ele conseguiu demonstrar, são as mesmas emoções sentida quando lemos o livro.

A atuação de André Mattos como tio Cícero deixa a desejar e traz uma sensação de vilão clichê de novela das 9h. Claro que sabemos que cada um faz uma leitura do personagem e esse foi o papel que ele entregou. Particularmente não agradou.

Fabíula, quando aparece como Maria, esposa de Júlio, dá outro show de atuação e que abre outros diálogos como a falta da voz feminina, a submissão, a aceitação, que não são apenas “pautas da vez” na mídia, mas assuntos urgentes e necessários há tempos. Fabíula é fiel à personagem e emociona.

A fotografia traz grandes registros da riqueza brasileira: a natureza faz o contraste com o contexto da trama onde tudo é camuflado com a beleza do lugar. Já a trilha sonora incomoda em alguns momentos com exageros, exaltando o suspense e entregando os grandes acontecimentos.

Sabemos que quando um livro passa por essa transição para se tornar um filme, o roteiro precisa desapegar de várias partes, algumas essenciais para construção do personagem, mas que se entrassem na trama poderiam se tornar uma minissérie. Para quem não leu o livro, Júlio tem as histórias do Araguaia e Serra Pelada, que são emocionantes, assustadoras e valeriam a pena serem vistas, mas temos que entender.

O filme traz uma crítica sutil à pistolagem no Brasil e deixa claro que a prática desse serviço é um conflito político e social. O livro estabelece uma conexão entre pistolagem e deterioração da esfera pública na região, e também fala sobre o modo como o campo jurídico processa esses conflitos, vide que Júlio foi acusado de apenas uma morte e teve um crime encomendado por um prefeito.

A Carta Capital publicou no início deste ano um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT), sobre os conflitos no campo, apontando 71 assassinatos, uma crescente onda que aumenta continuadamente desde 2015.

Como já colocado anteriormente por Klester na coletiva de imprensa sobre o filme, Marielle Franco e o prefeito de Santo André são casos de pistolagem, fora tantos outros que temos conhecimento.

Trazer tais críticas e levantar essas discussões na trama não é tarefa fácil, então Goldman preferiu uma trajetória mais rasa dando ênfase na família, no amor e na vida do personagem.

Mesmo sentindo falta de alguns pontos é bom ver esse marco, uma historia real contada na perspectiva de um jornalista se tornar filme. Klester Cavalcanti é sempre uma grande inspiração. Vale a pena conferir o longa e, mais ainda, ler o livro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s