Elenco e escritor de “O Nome da Morte” participam de Coletiva de Imprensa do lançamento do filme

A linha entre a realidade e a ficção é muito tênue. É difícil imaginar que o filme O Nome da Morte, baseado no livro homônimo, não seja algo derivado da cabeça dos autores. Mais difícil ainda é entender como, em pleno século XXI, ainda acreditamos que tal realidade é exclusividade de um lugar específico. Estas e outras indagações foram feitas durante a coletiva de imprensa do lançamento do filme, que aconteceu na última quarta-feira (25), com Klester Cavalcanti, autor do livro, o diretor Henrique Goldman e os atores Marco Pigossi e Fabíula Nascimento.

Klester contou brevemente que estava fazendo uma reportagem especial sobre trabalho escravo na região do Maranhão, em meados de 1999, quando descobriu que os prisioneiros não fugiam por medo de retaliação, já que os fazendeiros contratavam pistoleiros para matar familiares do escravo até que ele retornasse para a fazenda.  Foi aí que ele sentiu interesse em entrevistar um desses pistoleiros e acabou conhecendo a história de Júlio Santana, que anos depois veio a se tornar o livro O Nome da Morte.

“O que me levou a escrever o livro foi história extraordinária de um cara comum, vindo de uma família pobre, que entra no mundo da pistolagem. Só que ao mesmo tempo, ele é um ser humano muito interessante e, de um certo modo, é bom pai, bom filho, bom marido, só que tem essa profissão pouco usual. E quanto mais eu conhecia o Júlio, mais eu via que a história dele era fantástica”, conta o escritor.

Quem leu o livro e assistiu ao filme, sentiu falta de partes consideradas importantes na narrativa, sendo uma delas a guerrilha. Segundo o diretor, tanto essa quanto outras partes descritas no livro não seriam essenciais para o desenvolvimento do personagem. “Se fosse uma série, certamente faria parte da história. No caso do filme, nós julgamos que ela não era a coisa mais essencial para contar da trajetória e transformação do Júlio em um menino simples do campo em um dos mais prolixos assassinos que a gente sabe no país”, expõe Henrique.

O ator Marco Pigossi, que deu vida ao personagem principal do filme, falou sobre como foi tentar entender o pistoleiro para recriá-lo nas telas. Ele percebeu que, ao contrário de muitos personagens, Júlio acabava desconstruindo diversos conceitos, principalmente os morais, apesar da culpa que ele carrega pelos assassinatos.  “No meio da minha pesquisa, eu ouvi um cara falando exatamente essa frase: ‘o ser humano é um produto do meio onde ele ‘vevi’ ’. Se ele é treinado para matar, ele vai matar e se ele é treinado para não matar, ele não vai […]. Ele (Júlio)  vai se acostumando. É com isso que a gente vai se despindo e tentar buscar o vazio que o Júlio tem. Ele não tinha prazer em matar, ele não é um psicopata. Então foi um processo de mergulho entrar neste personagem”, revela.

Pigossi também disse ter criado o “seu” Júlio, partindo de suas experiências pessoais e profissionais. “Eu não tive acesso ou contato com ele. Eu tive que partir do meu Júlio, que veio do Marco que leu o livro, que entendeu esse personagem e que construiu isso com a Fabíula”, diz.

Ele ainda ressaltou que o longa-metragem, além de trazer para as telas o que é narrado nos livros, é uma denúncia em vários níveis sobre a falta de educação, cultura e impunidade que o país sofre, e mesmo sendo contra tudo que o Júlio faz, sabe que ele é vítima destas questões.

Para Fabíula Nascimento que interpretou a Maria, esposa de Júlio, o processo de criação da personagem e do núcleo familiar foi complexo, principalmente pelas diferenças e pelo não julgamento do posicionamento que a Maria real tinha. “Eu tive que tentar entender o porquê daquele comportamento tão diferente do meu, tão lá atrás, tão sem perspectiva, com uma vontade que vai até certo ponto, sem conhecimento, sem educação, sem cultura, sem direitos, sem entender a posição dela na sociedade como mulher”, explica.

A atriz também comentou sobre o desenvolvimento de sua personagem na trama e como foi desenvolver essas nuances para todas as fases da vida da personagem, uma vez que para se manter junto à família, ela acaba sucumbindo à vida que o seu marido lhe oferecia. “Ela (Maria) muda rapidamente, e o Henrique queria que cada hora eu fosse uma Maria. Eu achei isso um desafio muito interessante”, comenta Fabíula.

Klester revelou que quando foi contatado pelo diretor do filme, ficou inseguro pela escolha do Pigossi para o papel, principalmente por não conhecer o trabalho do ator e por esse ser o primeiro longa-metragem da carreira dele. Mas segundo o autor do livro, o trabalho entregue pelo Pigossi ficou excelente. “Anotem o que eu estou dizendo: vocês estão diante de um grande ator, ele vai fazer uma carreira brilhante e daqui há 10 ou 15 anos ele estará no topo do cinema. Esse rapaz tem um talento muito raro”, elogia o escritor.

E já no final da coletiva, Klester ressaltou como desfechos de vida assim não são tão distantes da nossa realidade. “A gente cai muito no erro de achar que o que aconteceu no filme só acontece no interior bravo. Marielle Franco é um caso clássico de pistolagem. Celso Daniel, prefeito de Santo André, também é um caso de pistolagem”, declara.  

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s