Crítica: A Cidade do Futuro

O cinema brasileiro é extremamente rico culturalmente, porém ainda sofre muito preconceito dos consumidores nacionais da sétima arte. Apesar disso, grandes nomes como O Auto da Compadecida (2000), Cidade de Deus (2002) e Tropa de Elite (2007) provam que é possível filmes nacionais saírem da curva e conquistarem o mundo. Assim também aconteceu com o longa “A Cidade do Futuro”, que teve sua estreia nacional em abril de 2018, mas circulou internacionalmente em 2017, quando percorreu 14 países e foi exibido em 38 festivais na América, Europa, Ásia e Oceania.

O filme é produzido pelo casal de diretores Marília Hughes e Cláudio Marques, ambos brasileiros, que apresentam o nordeste do Brasil de uma forma dificilmente retratada: eles fugiram do óbvio de exibir a seca e sofrimento dos lugares mais carentes para mostrar o machismo e homofobia que ainda são muito fortes nesses locais . Parte disso é derivada da escolha de amadores para compor o elenco do filme. Outro ponto crucial foi a escolha de retratar uma história verdadeira com elementos de ficção.

A narrativa conta a história de Milla, que é professora de teatro, Gilmar, que é professor de história, e Igor, que é vaqueiro, e a relação de amor que existe entre os três. Já nos primeiros minutos, descobrimos que Milla engravida de Gilmar e que ele também se relaciona com Igor. Os três estão dispostos a se assumirem, porém resistir a opressão conservadora, sexista e machista enraizada tanto em sua cidade quanto dentro de suas próprias casas não é uma tarefa fácil.

A trinca de atores principais é a que mais surpreende pela atuação: Gilmar se mantém com uma atuação linear desde o início, entregando de forma satisfatória o seu personagem; Igor tem suas primeiras aparições mais acanhadas, fala mansa e compassada – característica pessoal dele que reparei durante a entrevista que fiz –, mas ao decorrer do tempo vai dando força ao seu personagem, chegando a protagonizar algumas das cenas mais emblemáticas do longa; já Milla é quem mais encanta o público ao trazer uma personagem complexa e com várias camadas para o filme: sua relação com seus alunos, com seus familiares, sua gestação, seu carinho por seus companheiros e principalmente a busca por aceitação em um local onde o preconceito é predominante.

Hughes e Marques trazem à película uma fotografia naturalista. Os cenários são reais, passando de onde os personagens trabalham a ruas, locais onde se encontram secretamente e suas casas. Já a trilha sonora é utilizada de forma bem peculiar, em especial a música “Jeito Carinhoso” da dupla sertaneja Jads e Jadson, que se tornou tema dos personagens sendo apresentada diversas vezes durante as 1h15min de duração do filme.

A Cidade do Futuro ganhou diversas premiações, entre elas como o melhor filme Latino-Americano no BAFICI (Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires); melhor filme internacional no Newfest (New York LGBT Film Festival’s); melhor filme no Olhar de Cinema – Curitiba International Film Festival (prêmio do público); e como melhor filme brasileiro e melhor direção no 10º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. Tantas premiações reforçam ainda mais a importância de retratar a diversidade sexual e o machismo em um ambiente tão hostil como a sociedade do século XXI.

1 comentário Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s