A Cidade do Futuro: Conversa com os diretores

Nós, do Portal Opa, tivemos a oportunidade de entrevistar os diretores e atores do filme “A Cidade do Futuro”. Nossa primeira conversa foi com os diretores Marília Hughes, que é sócia da empresa Coisa de Cinema, na qual atua como diretora, produtora e editora, e Cláudio Marques, que é idealizador e coordenador do Panorama Internacional de Cinema. A Cidade do Futuro”, é o segundo longa-metragem produzido pelo casal, sendo eleito o Melhor filme Latino-Americano no BAFICI (Buenos Aires) e Melhor filme internacional no Newfest. O filme traz à tona temas contemporâneos e tabus como novos modelos familiares, sexualidade e machismo.

Na nossa conversa com Hughes e Marques, falamos sobre as motivações para o filme, sobre os personagens e a importância dos temas na nossa sociedade. Confira!

Portal Opa: Como vocês descobriram a história de Milla, Igor e Gilmar?

Cláudio Marques: Estávamos fazendo um documentário a respeito de Sobradinho, que é uma hidroelétrica que foi construída nos anos 70, no norte  da Bahia, sendo que 4 cidades foram submersas e 73 mil pessoas foram deslocadas e foi criado a cidade de Serra do Ramalho, no meio da Caatinga, no  sertão, há 800km de distância. Para convencer as pessoas a sair – claro que todas foram deslocados a força – eles falaram que iriam criar uma cidade do futuro, que seria parâmetro, modelo em termos de desenvolvimento social. E no meio da pesquisa sobre Sobradinho decidimos conhecer a cidade do futuro. A gente foi para a Serra do Ramalho e encontrou esses meninos incríveis, não apenas eles, existem outros meninos deslumbrantes, extremamente inteligentes, bonitos, e logo ficamos com desejo de filmar com eles. Eu estava pensando ainda qual seria o filme que faria com eles quando Milla ficou grávida, quando propomos transformar a história deles em ficção, e eles toparam. Rapidamente montamos o roteiro, fizemos oficinas e produzimos o filme.

Portal Opa: Como foi o processo de criação da história real com a ficção?

Marília Hughes: A história em si é muito interessante em um contexto difícil marcado pelo machismo, homofobia, pela figura do sertanejo forte, do vaqueiro, inclusive a vaquejada está no centro da cidade, mobiliza muito a região. A grande festa da cidade é uma vaquejada, por exemplo. Quando chegamos lá, em um primeiro momento, queríamos conhecer aquela cidade criada nesse contexto da hidrelétrica e que obviamente é uma cidade com muitas dificuldades de estrutura, trabalho, estudo como muitas cidades do interior, mas que tinha esses jovens encantadores vivendo uma história tão particular. A gente achou que isso era muito interessante, mas o ponto de partida foi conversar muito com eles quando tomamos a decisão de fazer o filme e contar essa história no cinema. Elaboramos um roteiro a partir disso, fomos ouvindo e colocando elementos daquele contexto que não necessariamente são parte da vida deles, mas que estão no ambiente que eles vivem, como a própria construção do Igor como vaqueiro, que é algo que faz parte da região, não porque ele é vaqueiro, mas é uma realidade daquele local e que traz muito o estereótipo do “macho”. Fomos trazendo o contexto do local e muito da vivência do que eles tinham para dizer sobre a relação com a família, amigos, a notícia da gravidez e como ela foi trabalhada entre eles. A partir da escuta e com a experiência que Claudinho tem sobre narrativa e construção de história que a gente foi adaptando com muita liberdade e consentimento.

Portal Opa: Atualmente, muito tem se falado sobre machismo e homofobia. O que você espera que o filme traga para sociedade neste contexto?

Marília Hughes:  São duas  coisas muito fortes: a resistência e a quebra do estereótipo. A resistência é fundamental para lutar por aquilo que você é e por direito civil. Eles desejam ter o direito de escolha e não querem ser expulsos da cidade onde vivem, onde os laços familiares e afetivos de amizade estão construídos. Existe um contexto preconceituoso então tem uma coisa de resistir, de lutar e conquistar o espaço sem precisar migrar para o grande centro urbano e se diluir no anonimato. Aqui é uma cidade pequena, com questões contemporâneas de cidades maiores. A quebra de estereótipos do sertão, que sempre é um lugar muito representado quando se vê a tradição do cinema novo, sendo um lugar de pobreza, miséria, que se falta tudo, onde não se tem sofisticação e se tem apenas a tradição. Acho que é um lugar que está antenado com grandes questões que atribuímos a Nova Iorque e São Paulo como a família fora dos padrões, que possui uma carga de ousadia e de liberdade. É uma história libertária!

Portal Opa: A família representada é a deles de verdade? Eles realmente sofreram todo o preconceito mostrado pelos seus familiares?

Marília Hughes:  Sim, a mãe é a mãe, a vó é a vó. Nós trouxemos a carga que a gente percebeu que existia em cada família, sendo mais forte na família da Milla, justamente porque ela é mulher e sofre toda essa mudança no corpo ficando publicamente mais visível. A gente trabalhou como cada família recebeu notícia da gravidez.

Portal Opa: Como foi para os familiares atuarem no filme? Existiu relutância por parte de alguém?

Marília Hughes: É muito importante falar: os três são muito queridos na comunidade. Existe essa homofobia, existe essa dificuldade com o diferente, mas eles são jovens que fazem muita diferença em Serra do Ramalho, mesmo que eles estejam distantes agora; Milla está fazendo faculdade em Goiânia; Gilmar passou em um concurso em BH; e Igor ainda está lá. Mas eles são muito ativos e dinâmicos, agilizam diversos eventos culturais na cidade. Eles possuem uma rede afetiva de laços enorme e são essas pessoas que estão no filme, são todos amigos próximos a eles. Os familiares tiveram dificuldade, mas toparam. Quem mais surpreendeu foi a mãe da Milla. Certo momento a gente pensou em chamar uma pessoa da cidade para fazer esse papel, mas aí nessa conversa de conhecer cada ambiente, cada casa, a gente resolveu ver se ela toparia, e surpreendentemente ela topou. É uma coisa que eu não tenho muita resposta para dizer, pois ao mesmo tempo que ela estava meio brigada com a filha, ela também topou fazer um filme sobre isso. Foi tudo muito íntimo e familiar, de chegar e tomar um café… não precisava de uma equipe de cinema intermediando, nós mesmos íamos conversar muito com eles antes de começar as gravações. As coisas eram pequenas, íntimas, fomos entrando conforme os meninos iam abrindo as portas.

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