Porque USS Callister é o melhor episódio de Black Mirror

Todos conhecemos os plot twists típicos de Black Mirror, aquela série que adora usar a evolução da tecnologia que nós tanto amamos como algo para nos assustar e nos fazer pensar “e se formos longe demais?”.

A quarta temporada, lançada no último dia 29 de dezembro, traz novamente o questionamento e algumas questões bem interessantes como até onde o controle parental deve ir, como nossas ações podem atingir muitos outros e até onde podemos chegar apenas para proteger a nós mesmos. Mas este não é o ponto que quero tratar aqui.

Vou focar especificamente em USS Callister, o primeiro episódio desta nova temporada. Posso estar sendo tendenciosa ao dizer que este é, sem sombra de dúvidas, o melhor episódio de Black Mirror até hoje, já que ele foi claramente inspirado na clássica série Star Trek, da qual sou fã. Não estou aqui para dizer como este episódio é maravilhoso só por seu visual – que, aliás, é deslumbrante –, mas também para dizer que seu maior mérito está, surpreendentemente, em sua história.

Caso você não lembre exatamente do que o episódio se trata, ele acompanha Robert Daly, um solitário e talentoso programador e cofundador do Infinity, um jogo de alta imersão. Amargurado com a falta de reconhecimento de sua posição por seus colegas de trabalho, ele desconta suas frustrações em uma versão privada do jogo, inspirada em sua série preferida. Depois de ter usado o DNA dos colegas para criar clones virtuais (similares aos cookies, apresentados em episódios anteriores da série), age como o comandante da nave estelar que dá nome ao episódio, submetendo as versões dos seus colegas a sua vontade, e os punindo se eles saem da linha – dentro ou fora do jogo. Quando Daly cria uma versão de Nanette Cole (a nova funcionária do escritório) no jogo, ela incentiva as outras cópias a se revoltar contra ele.

No início do episódio nos é mostrado a relação de Daly com seus colegas de trabalho, que não o respeitam e até mesmo o insultam, tratando como chefe apenas Walton, seu sócio e, como citado pelo próprio durante o episódio, o “rostinho bonito” da empresa. Nanette é a única que parece dar seu devido valor a ele, mas logo é corrompida – pelo menos aos olhos de Robert – pelos colegas de trabalho. Em sua fúria, ele coleta seu DNA e a transporta para dentro do jogo.

Posteriormente, vemos Daly indo para seu apartamento e descontando suas frustrações nas versões digitais de seus colegas, nos mostrando seu lado frio e extremamente psicótico. A partir deste ponto, não temos mais a visão do Robert fora do jogo, a não ser por algumas interdições dedicadas a mostrar suas interferências no ambiente virtual, sempre o vendo como o “errado” e “vilão” da história. Claro, não tiro o peso de suas ações, já que ele fez coisas bem ruins aos avatares apenas para vingar coisas que aconteciam no mundo exterior (muitas dessas das quais eles nem mesmo estavam cientes).

Avançando mais para o fim do episódio, a Nanette do jogo planeja junto à tripulação da USS Callister para que a versão privada seja apagada e eles (os avatares) possam “morrer”. Quando a nave está quase alcançando o vórtex de atualização e Daly está em uma nave menor os perseguindo e vociferando insultos e ameaças, o espectador torce pra que ele perca – eu mesma me vi cruzando os dedos e torcendo para que eles conseguissem cruzar o buraco negro e apagar o jogo.

Após conseguirem realizar seu objetivo, vemos Robert preso na versão excluída do jogo, gritando desesperadamente “End the f*cking game!!!” como uma tentativa falha de sair daquele vazio em que ele “merecidamente” ficou preso. A cena tem um corte e vemos seu corpo morto, largado na cadeira em frente ao seu computador, com olhos parados, para sempre preso em uma véspera de Natal que, assim como possivelmente muitas outras, ele passou sozinho.

Analisei detalhadamente este episódio até aqui para justificar o porquê de ele ser o melhor episódio de Black Mirror não apenas da nova temporada, mas de toda a série. Durante as outras temporadas, sempre questionamos as atitudes de outros, da tecnologia e como aquelas personagens tomavam decisões ou mudavam erroneamente apenas por influência da tecnologia. Sempre julgamos as ações de outros, e este episódio nos força a julgarmos nós mesmos.

Comemoramos, mesmo que internamente, a morte de um homem.

Pode não fazer sentido num primeiro momento, mas ao assistir novamente o episódio por esta ótica e refletir por alguns momentos, chegamos à esta conclusão. Como pudemos ser tão frios? Mesmo com todas as suas ações ruins (que aconteceram no mundo virtual, devo novamente lembrá-los), ele precisava mesmo pagar com sua própria vida? É algo realmente assustador quando entendemos seu real objetivo.

Assista novamente o episódio e reflita sobre isso. A cena final é propositalmente longa, para que possamos ver as consequências daquela exclusão no nível geral, na vida real. Foi uma escolha consciente e inteligentíssima dos roteiristas Charlie Brooker e William Bridges e diretor Toby Haynes nos conduzirem a acreditar que Robert Daly era na realidade um grande babaca. Nos levou a acreditar que ele merecia o fim que lhe foi destinado. Mas foi, na realidade, uma jogada genial para levar nós, os mais atentos, a perceber como no fim das contas nós somos os maiores babacas desta história.

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Black Mirror/ Reprodução

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