Eu já estive lá

Setembro Amarelo é uma iniciativa curiosa, mas vamos encarar os fatos: nós temos medo de falar do suicídio. A morte nos assusta e ela consegue nos horrorizar ainda mais quando passa a ser cogitada e tentada por alguém. Então nós, seres humanos, vivendo em uma enorme colônia de formigas que decidimos chamar de “sociedade moderna”, evitamos falar da morte.

Suicídio? Ah, isso é coisa de gente louca e cheia de problemas. Quem faz isso só consegue pensar em si mesmo; não é possível que alguém seja tão egoísta ao ponto de esquecer-se da própria família. Olha só aquela garota ali. Tem tudo do bom e do melhor e se matou. Mal agradecida. Imunda. Vai queimar no inferno.

Eu já cometi três tentativas de suicídio.

Em 2015 eu estava deprimida e não entendia tudo o que eu estava sentindo. Era cercada por pessoas que não se importavam verdadeiramente comigo e riam às minhas costas. Sempre brigava com os meus pais. Não conseguia me sentir útil para ninguém e não me sentia capaz de continuar. Escrevi cartas para os meus melhores amigos e me preparei para aquilo. Um conhecido percebeu que algo estava errado e me pediu para falar, e eu falei. Simplesmente anunciei que iria me matar quando chegasse a minha casa após o trabalho. Ele comunicou meus pais, que tiveram uma séria conversa comigo sobre como minha vida valia a pena.

Aqueles pensamentos sumiram por um intervalo de alguns meses. Por vezes eles se esgueiravam pela minha mente, como uma serpente que sorrateiramente ataca o calcanhar de um explorador desavisado. Nunca melhorei completamente. 2016 veio com o primeiro ano da faculdade, um desemprego que me forçou a trabalhar com a minha mãe e uma série de coisas que pareciam dar errado na minha vida. Conheci pessoas novas que me ajudaram a continuar firme, pelo menos por um tempo. Descobri que tenho ansiedade e tomei remédios que me deixavam completamente dopada por um tempo. Resolvi parar.

No ano novo, minha situação familiar estava ruim de novo. Todos estavam brigando com todos, aquela sensação de fracasso me atingiu de novo, a serpente dessa vez estava enrolada até o meu pescoço, me questionando se eu realmente deveria continuar ali. Fui para a varanda do meu quarto com meu celular nas mãos, e quando eu sentei na mureta que separava minha vida do resto, uma mensagem chegou. “Feliz ano novo!”, seguido de alguns emojis. Eu sorri, respondi e comecei a receber mais algumas. Voltei para dentro do meu quarto e chorei, pensando “e se aquela mensagem tivesse chegado um minuto depois?”.

No começo de 2017 consegui um emprego fixo, e adquiri mais algumas responsabilidades. Aquela pessoinha muito chata e amigável que inconscientemente me salvou no ano novo começou, junto com algumas poucas outras, a me ajudar. Percebi que podia e devia afastar algumas pessoas da minha vida, e o fiz. Aproximei quem eu senti que devia e sumi com quem merecia. Comecei a me sentir melhor, mais confiante e até mesmo mais viva. Percebi que podia sair e aproveitar, manter trabalho e faculdade funcionando e em perfeita harmonia.

Mas a serpente nunca saiu da minha vida. Por vezes no fundo da minha mente e muitas outras bem na frente dos meus olhos, sibilando e sussurrando coisas que eu não queria ouvir. E então ela atacou pela última vez. Há três semanas, fiz algo terrível para os meus pais, que resultou no que eu acho que foi uma das nossas piores discussões. Eu não conseguia respirar e nem raciocinar direito. Essas pessoas, que um dia me ajudaram, receberam uma mensagem dizendo que eu as amava, mas que eu não conseguia mais suportar.

A internet da casa caiu. Eu abri a gaveta do meu criado mudo e saquei cartelas de diversos remédios, comecei a abri-los na cama e peguei uma garrafa de água que eu sempre deixava na cabeceira. Olhei para o meu quarto, correndo os olhos por alguns fragmentos perdidos de memória e lembranças perdidas que pessoas queridas tinham deixado comigo, para que eu soubesse que era alguém. Olhei meus pôsteres do Star Wars na parede, minha estante com meu box de Harry Potter e um desenho do meu rosto, um dos presentes mais significativos que já ganhei. Com um sorriso sincero brotando no meio das minhas lágrimas, comecei a tomar os comprimidos.

Quando cheguei à quarta ou quinta cartela, decidi ligar os dados móveis do meu celular. Pra minha surpresa, várias mensagens estavam me aguardando. Algumas com o tom mais desesperado que outras. Recebi uma ligação. Um serzinho iluminado decidiu me mostrar que não valia a pena continuar. Recebi outra ligação, essa mais exasperada com o medo da perda. Senti-me acolhida, segura.

Salva.

Dormi algumas horas e nem mesmo sonhei; estava completamente dopada. Acordei com tonturas, dores por todo o corpo, enjoos e muito sono: as consequências da quantidade de remédio ingeridas na noite anterior. Naquela fatídica semana eu vaguei pelos meus compromissos rotineiros como um fantasma, simplesmente sendo carregado pela inércia que suas obrigações carregavam. Perguntavam como eu estava e eu respondia que tudo estava bem.

Ainda estou me recuperando, claro. Mas o curioso de tudo isso é que, no momento em que você pensa em tirar sua própria vida, no momento que a serpente enrola seu corpo escamoso em você, tudo o que você consegue pensar é que está sozinho, que ninguém realmente se importa. Que você não faria nenhuma falta. Esse último incidente me provou o completo oposto, mostrando pessoas que realmente querem me ver aqui, enchendo o saco com nerdices e conversas sem sentido nenhum.

Então, para o Setembro Amarelo lembre-se disso: não é preciso um mês para se discutir suicídio. Não é preciso uma época específica do ano para que você demonstre que se importa e que ama alguém; mostrar que aquela pessoa faz a diferença no seu mundo, com a menor atitude que seja pode salvar uma vida.

Suicídios não acontecem apenas em setembro.

Leve isso como prova. O depoimento de uma pessoa que já esteve nos piores e melhores lugares (físicos e figurativos) que a vida pode oferecer. Eu fui salva, tive uma sorte e apoio que não sou e nunca serei digna ou capaz de agradecer o suficiente. Às pessoas que me ajudaram, que estão lendo isso e sabem quem são, o meu obrigado. Aos que não perceberam, tudo bem. Se você não é nenhum dos dois… Procure, tente, ame intensamente, demonstre e seja. Tudo vai ficar bem, ou, pelo menos, vai tentar estar.

1 comentário Adicione o seu

  1. Alan disse:

    Precisamos falar sobre suicídio. Será que a melhor opção é interromper os nossos sonhos? Realmente é um sério caso que precisa ser tratado com delicadeza, como os que ajudaram a você…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s