‘Em Ritmo de Fuga’- Edgar Wright está de volta

“Eu queria fazer um filme da Marvel, mas não acho que eles queriam fazer um filme do Edgar Wright.” Foi assim que o diretor inglês Edgar Wright explicou o motivo de ter abandonado a direção de Homem Formiga à revista Variety, em entrevista divulgada em junho.

Mas o que exatamente é um filme de Edgar Wright? Quem ainda não conhece o trabalho de cineasta (Todo Mundo Quase Morto, Scott Pilgrim Contra o Mundo), um dos mais talentosos diretores da nova geração, poderá descobrir a resposta para essa pergunta assistindo o seu novo filme Em Ritmo de Fuga.

O diretor e roteirista de 43 anos se notabilizou por seus filmes de comédia visual, nos quais a maioria das piadas vem mais da construção das cenas e de suas habilidosas maneiras de dirigir e editar os filmes do que de simples punchlines. Além disso, Wright é um aficionado por cultura pop, e faz questão de deixar isso claro em todos os seus filmes.

Com Em Ritmo de Fuga, Wright conduz um musical de ação, mas sem fazer seus personagens saírem cantarolando e sapateando de maneira ridícula pelas ruas como em La La Land, e sim os movendo de acordo com o ritmo das canções, um artifício elaborado mas ao mesmo tempo simples e pueril. Quem nunca bateu o pé conforme a música que estava ouvindo no ônibus indo para a aula?

Aliás, o diretor já havia feito algo parecido em Todo Mundo Quase Morto, numa cena em que os personagens batem em um zumbi no ritmo de Don’t Stop Me Now, do Queen. As duas cenas mais marcantes de Em Ritmo de Fuga, nesse aspecto, são as do tiroteio ao ritmo de Tequila, do The Champs e a da perseguição acompanhada da épica Hocus Pocus, do Focus.

Assim, Wright dá uma aula de como se usar uma trilha sonora de peso e transformá-la num personagem do filme, um desafio tentado por muitos cineastas mas, na maioria das vezes, sem sucesso. Um exemplo recente é Esquadrão Suicida, filme de David Ayer que mais parece uma simples playlist do Spotify, colocada para tocar a esmo em momentos inadequados do filme e de maneira inócua. No longa de Wright, cada música é inserida no momento mais exato possível, se tornando intrínseca e imprescindível ao longa.

As músicas são todas diegéticas, ou sejam, fazem parte da narrativa e existem no filme, sendo quase sempre ouvidas no iPod de Baby (sim, Baby, B-A-B-Y), o protagonista do filme interpretado por Ansel Elgort. O elenco é estelar, contando também com Kevin Spacey, Jamie Foxx, Jon Hamm e Jon Bernthal.

Os acertos da direção – que também nos brinda com ótimos e elegantes planos-sequência, um deles logo na segunda cena do filme -, quase nos fazem esquecer do quão simples é a trama. Baby é um piloto de fuga super-habilidoso que, por conta de um acidente na infância, sofre de um problema de audição o qual lhe traz insuportáveis zumbidos. A solução do rapaz para o problema é ouvir músicas a todo momento, nunca tirando seus fones dos ouvidos. “Me mantém ativo”, explica o personagem.

É a velha história do bandido de bom coração que quer se aposentar do crime e levar uma vida direita, mas é obrigado a continuar nesse meio ao saber que abandoná-lo poderia colocar em risco a vida das pessoas que ama, inclusive sua namorada Debora (Lily James).

Mesmo assim, as quase duas horas do filme se tornam um terreno propício para o desenvolvimento de todos os protagonistas e ainda há espaço para a conversão de dois personagens que viram a casaca no final.

Em Ritmo de Fuga é, além do retorno de Edgar Wright após quatro anos, o atestado de que a Marvel cometeu um grande erro ao cortar as asinhas do diretor inglês, levando-o a pedir o boné e entregar a direção. Azar da Marvel e de todos nós, que iremos sonhar com o Homem Formiga desse diretor tão talentoso por muito tempo.

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Em Ritmo de Fuga/Reprodução

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