Better Call Saul: uma série sobre irmandade

No ano de 2012, quando o mundo ainda não conhecia o fim da história de Walter White e Jesse Pinkman, e a série ‘Breaking Bad ainda estava em sua penúltima temporada, Vince Gilligan afirmou em uma entrevista que tinha planos para um spin-off da série, que contaria a história de Saul Goodman, o advogado trambiqueiro e charlatão que estava roubando a cena e ganhando a simpatia dos fãs de ‘Breaking Bad‘, interpretado por Bob Odenkirk.

A confirmação da produção veio em 2013, quando foi anunciada a parceria entre a AMC, emissora americana que produziu ‘Breaking Bad’ e a gigante do streaming Netflix. Vince Gilligan voltou ao comando acompanhado de Peter Gould, um dos roteiristas da série original. Não por acaso, foi Peter quem escreveu o episódio de ‘Breaking Bad’ responsável por apresentar o personagem Saul Goodman pela primeira vez ao público.

A série recebeu o título de ‘Better Call Saul’ e estreou em 2015 com muita expectativa dos fãs, uma vez que ‘Breaking Bad’ chegou ao fim em 2013 para imediatamente ser aclamada como uma das maiores séries de todos os tempos e entrar para o cânone da cultura pop. Os eventos narrados na série se passam em 2002, seis anos antes do início da saga de Walter White.

As cenas em preto e branco que abriram o primeiro episódio – e os primeiros das temporadas seguintes, como sabemos hoje – entretanto, mostram a melancólica situação de Saul Goodman após o fim de ‘Breaking Bad‘. Obrigado a mudar de identidade e a recomeçar a vida do zero, Saul agora é Gene, um gerente de um café de shopping center que vive uma vida solitária e monótona, sempre desconfiado e com medo de que seu passado venha à tona.

Quando volta para a casa no fim do expediente, Saul, ou melhor, Gene, assiste as fitas de suas propagandas de advogado, num ritual triste e que deixa claro a nostalgia e a saudade que seu personagem nutre pelo passado de advogado charlatão.

As cores voltam à tela e o tempo, por sua vez, retorna ao ano de 2002, para conhecermos não a história de Saul Goodman, o trambiqueiro, e sim de Jimmy McGill, seu antecessor e sua verdadeira persona, um batalhador advogado em início de carreira que luta para deixar seu passado de pequenos golpes para trás. Se em ‘Breaking Bad’ vemos um personagem totalmente caricato, exagerado e às vezes até um pouco irritante, em ‘Better Call Saul’ descobrimos um personagem muito mais humano.

Jimmy é irmão de Charles “Chuck” McGill, um respeitado e experiente advogado e um dos sócios da firma de advocacia Hamlin, Hamlin & McGill, mas que vive como um ermitão em casa por conta de uma doença que não fica muito clara ao público nos primeiros episódios. Quem cuida de Chuck é o dedicado irmão mais novo Jimmy, ao mesmo tempo em que luta por sua sobrevivência como advogado público.

A relação entre os dois irmãos, que no começo aparenta ser tranquila e saudável ao espectador, se revela muito mais problemática na realidade, à medida em que segredos do passado vêm à tona. O desenrolar da relação é explorada com maestria e uma profundidade imensa, despertando os mais diversos sentimentos nos espectadores durante as três temporadas. Podemos sentir raiva, empatia e escárnio dos dois irmãos ao mesmo tempo, ao passo que os dois entram em pé de guerra, e esse vem sendo o grande trunfo da série até aqui.

‘Better Call Saul’, ao contrário da obra da qual foi derivada, não é sobre tráfico de drogas e grandes cartéis mexicanos, apesar deles fazerem parte da trama. O assunto principal são as relações familiares, principalmente o amor e o ódio fraternais, que conduzem toda a pegada da série durante as três temporadas.

Apesar de ter frustrado alguns fãs que esperavam uma série com ação frenética, como visto em boa parte de ‘Breaking Bad’, é impossível negar que Vince Gilligan e Peter Gould acertaram em não criar apenas mais um spin-off repleto de fan-service, usando a obra original como muleta, como já vimos acontecer com diversas franquias da tevê e do cinema.

Porém, ainda assim é possível achar uma grande semelhança entre os dois protagonistas das duas séries. Assim como Walter White – o pacato professor e pai de família que vai, aos poucos, se transformando em Heisenberg, o inescrupuloso traficante de metanfetamina -, Jimmy também tem sua luta pessoal para não libertar seu monstro interior, o passador de pernas e egoísta Saul Goodman.

A série vem sendo aclamada pela crítica e pelo público, e sua quarta (e talvez última?) temporada já foi confirmada pela AMC e pela Netflix tão logo o último episódio da terceira temporada foi ao ar no último mês de junho.

Foto: divulgação

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