A graça e a força de Maria

Em 1º de maio de 1950, no Sul de Minas Gerais, nasce ela, Maria das Graças. A primeira criança daquela família e a primeira das sete Marias. Sim, mais tarde, além dela, vieram Maria Aparecida, Maria Eugênia, Maria Geralda, Maria Antônia, Maria Helena e Maria de Fátima, suas irmãs. Mas engana-se quem acha que sua história resumiu-se apenas na casa das sete mulheres. Maria, que mais tarde tornou-se conhecida como Mariazinha, logo voou.

Aos seis meses, ela foi entregue a sua avó materna, Maria Antônia, mas o convívio com seus pais, Geraldo e Maria Nezia, era bom. Morava perto deles, e sempre que possível ia até lá. Com o passar do tempo, Maria foi crescendo e foi ficando cada vez mais danada. Nem a rigidez de sua avó foi capaz de impedir que ela fizesse uma grande arte, a arte que a fez mudar totalmente de vida. Aos sete anos, ela tomou soda caustica, e sem condições nenhuma de tratamento nas cidades vizinhas, correndo risco de vida, ela veio para São Paulo tratar-se na capital paulista e por aqui ficou.

Tia Ana foi quem a abrigou na zona oeste da cidade no bairro da Vila Sônia. Os anos se passaram e, aos 13 anos, a mineira que ainda fazia o tratamento por causa do ocorrido, começou a trabalhar para ajudar a tia. Trabalhou como empregada doméstica, entre uma casa e outra. Em algumas, passou por muitas humilhações. Na juventude, conheceu seu primeiro namorado e aos 19 anos teve seu primeiro filho, logo depois veio o segundo. O parceiro sumiu depois de pouco tempo do nascimento de seus filhos e Maria enfrentou toda aquela barra sozinha. “Até hoje eu não sei o que aconteceu com ele. Ele sumiu, não sei se morreu ou se aconteceu alguma outra coisa”.

Após oito anos, a vida sorriu para ela, e foi nos embalos dos bailes em Pinheiros que conheceu Odair. Bom moço, pintoso e elegante. Começaram a namorar e resolveram se juntar. Logo veio a primeira gravidez, que infelizmente não deu certo. Um aborto espontâneo quase tirou sua vida. Na época trabalhando na lavanderia do hospital Albert Einstein, os médicos correram para socorrê-la em seu segundo mês de gestação. Depois do triste episódio, o casal teve sua primeira filha, e não demorou muito para vir a segunda.

Com a família crescendo, precisavam de um lugar maior para morar. Foi então que Maria, seu marido e cunhado juntaram 600 cruzeiros e se mudaram para uma área livre no Morumbi, lugar denominado como Nova República. Lá construíram sua casa, ganharam mais uma filha, mas essa de coração, fizeram amizades, e criaram seus filhos, até que no dia 24 de outubro de 1989, uma tragédia horrível aconteceu no lugar. Um deslizamento de terra, que matou 14 pessoas, em sua maioria crianças, entre elas, a sobrinha de Maria de apenas um ano. Ali ela se viu em mais um momento difícil de sua vida: na tentativa de salvar sua sobrinha, quebrou a perna, viu sua casa destruída e sua família arrasada.

Não demorou muito para que  ela, a família e todos que estavam desabrigados fossem direcionados ao bairro da Cohab Raposo Tavares, na zona oeste. As casas que estavam prestes a serem finalizadas abrigaram aquele povo que não tinha para onde ir. Com espírito de liderança e garra, Mariazinha, que dali já era conhecida assim, e seu marido ajudaram a comunidade a se levantar. Foram meses de acompanhamento por parte da prefeitura e de entidades. As casas, que a princípio não tinham porta nem janelas, iam começando a tomar forma com ajuda de Maria, e muitas pessoas conseguiram reconstruir suas vidas.

Batalhou por um bairro melhor ao lado de seu marido, lutou por escola, creche, igreja e tudo de bom para sua comunidade.  Vendendo sorvete aqui, pão caseiro ali, continuando trabalhando em casas de família, Mariazinha viu seus filhos crescerem, tomarem seus rumos. Viu seus netos nascerem, e seu companheiro falecer.

Após mais um período de tribulação em sua vida, ela se viu sem chão. Trabalhando em um restaurante, sofreu um pequeno acidente que ocasionou um mau jeito na coluna e que fez com que ela ficasse afastada do trabalho por um bom tempo. Mas ela se reergueu como uma mulher de muita fé e que nunca se deixou abater. A vida a uniu com Seu Walter, seu atual companheiro.

No fim de 2015, sua filha caçula ia dar à luz mais uma de suas netas, e após longas horas de viagem, ela desembarcou para uma linda experiência: a visita a um país o qual via apenas nos noticiários. Mariazinha  e seu companheiro desembarcaram na Alemanha e lá permaneceram por um mês. “Essa viagem pra mim foi uma marca de uma grande superação de vida depois de tudo o que eu passei. Eu nunca imaginei em estar lá, e quando estive foi maravilhoso. Conheci lugares lindos e pessoas incríveis que nos trataram muito bem. Me emocionei muito quando vi o muro de Berlim e a igreja ortodoxa”.

Hoje, Maria pensa em voltar para sua terra de origem, Lambari, no sul de Minas Gerais. Com seu coração gigantesco e sua bondade tamanha, que ao longo de todos esses anos ajudou muita gente, ela pensa em ter tranquilidade, lazer e continuar ajudando as pessoas. “Eu penso em abrir algum lugar para ajudar idosos. Tem gente que não consegue tomar um remédio sozinho, eu quero ajudar e passar o meu conhecimento para que essas pessoas possam ser beneficiadas”.

Foto: Arquivo pessoal

 

1 comentário Adicione o seu

  1. Aline Del Cid disse:

    Lindo e emocionante, assim descrevo essa história de lutas e glórias!

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