O típico conto de um assalto

As pessoas costumam dizer que quando chega a hora de se despedir dessa vida, é possível ver os momentos mais marcantes dela passarem bem diante dos seus olhos. Eu estava caído na rua com uma arma apontada para a minha cabeça a menos de sete metros de distância e nada me vinha na cabeça. Talvez não fosse minha hora, talvez as pessoas se enganem de propósito apenas para algum tipo de conforto. Naquele momento, não vi nenhuma imagem, não me lembrei de ninguém e, mesmo que eu quisesse, não conseguiria, pois a única coisa que ecoava na minha cabeça era o som abafado de tiros que a arma não disparará.

Alguns minutos antes de me encontrar nessa situação, meu dia havia acontecido como de costume. Acordei às 6h da manhã para ir ao trabalho. Tomei um longo banho demorado e um café da manhã reforçado. O celular estava na mão, eu trocava mensagens com um amigo que faria entrevista na mesma empresa que eu trabalhava. Nos encontraríamos no ponto de ônibus próximo de casa em poucos minutos. Tudo estava ocorrendo conforme o planejado, exceto que, ao subir as escadas da garagem de casa para abrir o portão, avistei um homem subindo a rua de maneira lenta e compassada e logo senti um frio na espinha. Dei meia volta e comentei com minha mãe sobre minha má impressão. Fiz uma rápida oração antes de sair de casa, em seguida, dei continuidade ao meu trajeto.

Ao fechar o portão e atravessar a rua, peguei o celular para avisar que chegaria atrasado ao local combinado. Infelizmente, antes de terminar de escrever minha mensagem, fui abordado por dois homens em cima de uma moto que já me fitavam desde o momento que entraram na avenida. Eles falavam alto, exclamavam para eu entregar meu celular. Nesse momento, a avenida em que eu passava, tão movimentada, estava completamente vazia. Não passavam veículos na rua, as calçadas estavam desertas – com exceção do homem que já estava muito a frente -, mesmo os vizinhos curiosos não deram as caras em suas janelas.

Neste tipo de situação o máximo que se pode fazer é lutar contra os próprios  instintos de medo, agressividade, desespero e tentar ser o mais racional possível. Aquele momento era eu contra eu mesmo. Luta perdida! Minha racionalidade foi vencida pelo medo e meu corpo respondeu aos primeiros impulsos. Corri para o outro lado da rua,  respirando fundo o ar gélido de uma manhã fria e, ao sentir o mesmo ar passando rápido em meus pulmões, comecei a arfar. Ao olhar para trás, percebi que o garupa desceu da moto, levantou o visor do capacete, sacou uma arma de sua cintura e começou a gritar coisas irreconhecíveis para mim.

Minhas pernas, até então firmes, cederam a pressão e logo me levaram para baixo.  Com o rosto tão colado ao chão era possível sentir o cheiro cálido do asfalto. Levantei quase tão rápido quanto caí, peguei o celular que estava em minhas mãos e o lancei em direção ao ladrão sem olhar para trás. Antes de me virar, eles gritaram para continuar andando para frente e não olhar para trás. Já estava sem ar, eu acreditei que aquele momento seria o último da minha vida. Sonhos, família, amigos, tanto para se ver, conhecer, viver trocados por um simples aparelho eletrônico completamente desgastado. Felizmente eles seguiram seu caminho e eu o meu. Voltei para casa com a palma das mãos raladas e o joelho sujo, mas o  pior não era visível aos olhos.

Depois de literalmente sacudir a poeira, fui encontrar o meu amigo que já estava preocupado com o meu atraso. Dali para frente o dia foi tão normal quanto poderia ser, exceto pelos eventuais barulhos de motos que me causaram calafrios durante um longo período de tempo.  

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Vista de casa do local onde fui assaltado / Foto: Guilherme Moura

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