A escritora

Existem muitas formas conhecidas pelo homem para se contar uma história, já que desde o início dos tempos, nós, seres humanos, temos a necessidade de contá-las. Nós podemos dizê-las em voz alta, escrevê-las ou desenhá-las. Acredito que as palavras são, como diria Alvo Dumbledore, nossa fonte inesgotável de magia; elas expressam coisas que são impossíveis de explicar. Coisas como sentimentos e, ouso dizer, sanidade.

Desde criança eu amo ler, e próximo ao início do ensino médio, descobri um talento até então desconhecido: escrever. Após passar anos envolta por mundos fantásticos, havia começado a criar os meus. Sempre gostei de histórias de terror e horror, mas não daquelas baratas com narrativas rasas. As que eu amo te prendem na cadeira, envolvem sua mente em uma trama em que pessoas morrem em situações que te deixam acordado durante solitárias e frias noites. Eu sei, mórbido. Quando comecei a me aventurar pelo nobre campo da escrita com pequenos contos, o gênero ficou claro.

Logo que eu e meus amigos de longa data mudamos de escola, eles leram minhas histórias pela primeira vez. Nós morávamos em uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, ou seja, qualquer novidade nos tirava do constante tédio causado pelo isolamento da civilização e era extremamente interessante. Minhas histórias eram a novidade, e eu uma estrela de 5 minutos.

As finas folhas de caderno que eu usava para escrever meus contos começaram a se desgastar pela quantidade de mãos pelas quais passaram, o que levou meus amigos a confiscá-las temporariamente e digitar as horripilantes palavras que elas continham. A partir deste ponto, não sei mais distinguir o real das supostas alucinações. Pense bem no que acreditar.

Com o sucesso, surgiram pedidos para eu colocar as pessoas nas histórias. Então eu atendi esses pedidos, começando pelos meus amigos que divulgaram minhas histórias. A primeira foi a minha melhor amiga, que insistia para morrer trágica e heroicamente. Escrevi um conto onde ela tentava salvar seu amado de um prédio em chamas e era consumida pelo fogo logo após salvar o homem. Dois dias depois da história ser divulgada, um incêndio tomou conta do apartamento dos pais dela e o único que ela conseguiu salvar antes de morrer carbonizada foi seu irmão mais novo.

Não havia mais nenhuma vontade em mim, e brincadeiras de extremo mau gosto vindas de uma criatura desprezível chamada Amber Price não me ajudavam em nada. Ela fazia questão de fazer a conexão entre a morte de minha melhor amiga e o conto que eu havia escrito na semana anterior. O veneno que destilava em suas palavras foram o suficiente para despertar em mim um ódio grande o suficiente para escrever um conto onde ela, que trabalhava na loja de ferragens da cidade, fosse morta “acidentalmente” por uma máquina de pregar caixões.

No dia seguinte ela morreu exatamente da forma descrita.

A culpa me cegava. Não havia escapatória, apenas desgraça causada pelo que eu acreditava ser um dom. Na dor causada por meu sofrimento, enquanto uma enxurrada de lágrimas e lembranças dos acontecimentos recentes me atingia, escrevi um breve conto de dez linhas onde eu, Malice Dawson, morria assassinada por uma figura encapuzada. Deitei-me sobre os lençóis amassados de minha cama e aguardei o destino. Após algumas horas cai no sono.

A última lembrança que eu tenho vivida em minha mente é de uma figura com o rosto coberto me arrancando de meu sono nada leve.

(…)

— Ela enlouqueceu. Achava que as pessoas estavam morrendo por causa das suas histórias, e quando a mãe dela tentou conversar sobre isso encontrou uma história onde ela morria — Emilly, a melhor amiga de Malice comentava com Amber sobre o terrível acontecimento.

— Quem ela achava que tinha morrido? — ela parecia estar realmente preocupada com a garota.

— Eu e, bom, você — Emilly disse a última palavra com muito cuidado.

— Que horror. Por que ela escreveria uma história comigo morrendo? — Amber sabia o porquê, mas queria ouvir os possíveis outros motivos.

— Acho que o sermão sobre como ela estava distraída na partida do time de vôlei na ultima sexta-feira não ajudou muito, concorda? E mais, você não era exatamente a Miss Simpatia com ela — o tom era acusador.

— Eu sei, e não me orgulho disso. Na verdade, até mesmo me culpo em parte. Não queria que nada disso tivesse acontecido – a jovem suspirou – Pobre Malice, tinha um futuro brilhante pela frente. Mais brilhante do que o de qualquer uma de nós.

(…)

Existem muitas formas conhecidas pelo homem para se contar uma história, mas nenhuma pode nos fazer enlouquecer. As paredes do cômodo branco onde estou presa se fecham cada vez mais ao meu redor. Os pesadelos são cada vez mais claros e frequentes. As dores causadas pela roupa na qual me encontrava aumentavam mais e mais. Não havia escapatória. Meu dom havia se tornado uma maldição. Será mesmo que minha sanidade se foi?

E se, no final, o insano for a pessoa lendo isso?

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