Tempo ruim? Tempo bom!

Já havia virado umas e outras.

Soltíssimo, foi mexer com o amigo que estava deitado, pronto pra dormir.

Aproximou bem seu rosto do dele, e, pela boca frouxa, deixou o riso com o bafo ardido escapar. Achou o som engraçado, a segunda risada já saiu mais alta, e, na tentativa de segurá-la, prendendo o ar na boca, começou a babar.

O amigo acordou levando um puta susto com a proximidade do outro, que também tinha aproximado o corpo e, como num touro mecânico, estava montado, fazendo grande esforço pra não se soltar de vez em cima dele. Abriu os olhos, com aquela indisposição de quem já tava partindo pra ser feliz no mundo dos sonhos.

-Sai daqui, porra!

Não deu outra, o som da gargalhada tomou conta do quarto. Era muito divertido acordar o cara, um dos mais brincalhões da turma, no susto. Aquela cara amassada e o olhar incompleto das pálpebras cansadas… Trollar era uma obrigação!

-Mano, se você não sair daqui, agora, eu vou te tirar!

-Ixee, olha o cara, bravão! Hahahahaahahah.

Estavam em uma viagem em grupo: não de férias, mas de um feriado prolongado. A ansiedade pra curtir era grande. O tempo tava complicado, chovera o dia todo. O que bebeu demais tinha a necessidade ainda maior de curtir, chegou um dia mais tarde que o resto da galera. O que estava com sono, não fazia tanta questão de estar curtindo ali, se estivesse dormindo em casa, contanto que sossegado, estaria satisfeito. De toda forma, ambos sabiam, acabado aquilo, voltariam para a rotina maçante.

Trolladas são excepcionais! Era o cara mais brincalhão da turma, aquele sem escrúpulos, ruinzão, merecia.

-Mano, sai daqui! Amanhã vou te acordar na base da bicuda!

-Hahahaha. Fica bravo não, migo. Deixa eu deitar aí, vai!

-Já te falei pra sair daqui!

-Vou cantar pra você, então.

Quando um cara assim, MUITO LOUCO, começa a cantar… já se viu.

Aquela viagem significava um respiro. Estavam atolados de trabalhos da faculdade, sofriam pressões nos serviços, indefinições pessoais… significava ainda mais: diversão. O grupo que viajou era grande, nessas situações sempre há um clima de divisão natural entre os que menos se aceitam, mas o ego grande marcava presença, e um incidente anterior provocara um verdadeiro racha. Nada tão sério, sentimentalismo. Nada que uns jogos e uma bebedeira, pra aplacar o ódio do tempo, dos desentendimentos e da vida, não resolvessem. Estavam ali, foda-se.

-Desliga essa porra, mano!

-Hahahahhaha. Hakuna matata!

Começou a rir ainda mais e alimentou a raiva de todo mundo que tava tentando dormir. Parecia impossível conter, desde que comprou o celular percebeu a potência da lanterna dele. Sabia que algum dia seria útil. E apontá-la, em um quarto escuro, para os olhos do amigo de ressaca tentando dormir, foi o melhor proveito que fez dela.

Aquela noite não poderia durar pouco. Jovens, livres, farra liberada. E não durou, a conversa foi longe, a sinceridade brotou depois de ser sistematicamente regada por 51 e unas cositas más. Houve, naturalmente, um início de empolgação depois de uns besitos. Mas aquilo, também, não poderia durar para sempre.

Desistiu, colocou o travesseiro na cara, já estava puto de vez com o amigo chato. Em contraponto, o outro, animado pela situação, pela bebida, a emoção de estar ali, queria curtir. Vendo a ineficiência das investidas, com o amigo tendo coberto o rosto, já pensava mesmo em sacar a bilola pra aprontar alguma maldade, do tipo cacetar a perna do dorminhoco. Foi impedido por um colega que saía do banheiro, esbarrando em tudo, cambaleante, o puxou para fora do quarto. Quis saber o que estava acontecendo, o motivo da revolta de todos que reclamavam querendo dormir. Informado de forma duvidosa da verdade, voltou fazendo justiça, aos gritos, ao amigo que havia sido expulso covardemente do meio daqueles caretas mal-humorados. E assim, a noite seguiu até um pouco mais longe.

Os jogos que lhes distraíram durante a longa noite chuvosa acabaram, e, junto com a última piada e o último riso coletivo, banhados pela última gota de álcool, as preocupações voltaram: serviço, estudos, vida. Uns foram dormir, pra não pensar, digerir a embriaguez desacordados; teve quem foi ao banheiro, revidar o ataque feito ao fígado com um contra-ataque à privada; o último deitou, sem sono, logo depois foi conversar com o amigo, um dos mais brincalhões, recolhido.

Resmungou um pouco mais da incompreensão de quem repeliu suas graças, desligou a lanterna do celular e foi deitar. A pulsação típica que acontece na cabeça nessas horas, em que os primeiros sinais da bebedeira são resistidos, obrigou que ele pensasse no valor que esses momentos fugidios têm para uma vida de obrigações. Um ano inteiro de desgostos para momentos pontuais de felicidade, como aquele. Durou o tempo que os organismos, desacostumados com a farra, aguentaram, e já ia acabar. Daí, conseguiu adormecer.

Num instante, acordou incomodado, um barulhão perto da cabeça. O corpo, empurrado, ia pra frente e voltava, pra frente e voltava. Estava de costas, e com esforço, enquanto rolava indo pra frente e insistia para voltar, olhou pra trás e, dominado pela lassidez resultante da noite anterior, percebeu, ao intervalo de cada barulhão, um som de chinelo estalando no chão. Filho da puta, cumpriu com a promessa!

Amanheceu, era hora de voltar.

1 comentário Adicione o seu

  1. Lilian Pereira disse:

    Muito bom! Quem nunca trolou com um amigo, quem nunca se divertiu vendo alguém zoar kkkkk, viagens, encontros e depois no outro dia ter que trabalhar. Crônica gostosa de ler e divertida… Muito bom!

    Curtido por 1 pessoa

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