Rogue One – quando só o fan service já basta

Tem coisas essenciais que esperamos encontrar em cada filme ao qual assistimos. Uma boa trama, com roteiro e personagens bem explorados e desenvolvidos é o mínimo que se espera.

Mas e quando você assiste a um filme derivado de uma das franquias mais importantes do cinema e da qual você é grande fã? É razoável deixar todos essas características  que você considera indispensáveis para tornar um filme bom de lado, e se contentar somente ao sentimento de nostalgia trazido por ele?

Primeiro spin-off da franquia Star Wars – se ignorarmos o infantil e um tanto bizarro Caravana da Coragem: Aventura de Ewok -, o filme Rogue One: Uma História Star Wars parece partir da premissa de que a resposta para a pergunta feita no parágrafo acima é realmente sim. O filme dirigido pelo inglês Gareth Edwards (Godzilla) resgata todo o espírito da trilogia original de George Lucas, numa avalanche de fan services, cameos e referências, e ao mesmo tempo traz conceitos e tons nunca usados na saga que vão deixar os fãs de Star Wars com a mandíbula inferior no chão.

Situado entre os episódios III e IV, Rogue One conta a história do grupo de rebeldes que roubou os planos da Estrela da Morte, evento que serve como pontapé inicial para o primeiro filme da franquia, lançado em 1977.

Antes de falarmos sobre tudo que dá certo no filme, é importante enfatizar o seguinte: o filme tem problemas, e não é necessário procurá-los com uma lupa. A coragem de mais uma vez colocar uma mulher como protagonista é louvável e necessária mas, dessa vez, infelizmente, a personagem principal não tem uma presença tão marcante como a Rey de O Despertar da Força de J. J. Abrams, interpretada por Daisy Ridley. Jyn Erso, filha do cientista responsável pela construção da arma de destruição em massa do Império, é um dos problemas mais visíveis do longa. Mal explorado e pouco desenvolvido, o arco da personagem, interpretada por Felicity Jones, é preguiçoso e piegas, sendo baseado praticamente apenas em sua relação com o pai. Muito pouco para uma protagonista de um filme desse porte.

O mesmo problema acontece, em menor escala, com os outros personagens principais. Apesar da interessante variedade étnica (Diego Luna, do México; Donnie Yen e Wen Jiang da China; Riz Ahmed, inglês com ascendência paquistanesa) do elenco principal que torna o grupo de protagonistas universal, a sensação que fica é que o filme joga no lixo a oportunidade de contar a história de personagens com potencial para muito mais.

Porém, para os fãs de Star Wars, os problemas, apesar de perceptíveis, passarão batidos em meio ao clima inédito que Gareth Edwards trouxe à franquia. O diretor entrega um verdadeiro filme bélico, repetindo tudo o que deu certo em sua versão do filme do monstro japonês Godzilla, mas sem perder a estética e nem o espírito que consagraram Star Wars na cultura pop.

O diretor tira vantagem do fato de poder contar a história de um evento que nós sabemos ter ocorrido, mas não como se sucedeu. Novos conceitos, como o extremismo rebelde e o lado sujo da Aliança, dão um tom mais sério e sombrio jamais visto em nenhum dos sete episódios da saga.

Um dos maiores erros da segunda trilogia cometido por Lucas foi ter criado um visual incompatível com a ordem cronológica da saga, que fez com que a tecnologia vista nos episódios I, II e III parecesse mais moderna e avançada do que a dos episódios IV, V e VI. O mesmo erro não é cometido em Rogue One. A estética do filme é totalmente fiel e compatível à identidade visual da trilogia original, desde o design das naves até os Walkers Imperiais, que aparecem mais imponentes e bonitos do que nunca.

Alguns personagens importantes da trilogia original também marcam presença, entre eles o Governador Tarkin e, é claro, Darth Vader, de volta às telonas após o final do episódio III, lançado no agora longínquo ano de 2005. As cenas com o vilão são poucas, porém marcantes, para dizer o mínimo.

K-2SO, o androide grandalhão e inconveniente, é uma das melhores surpresas do filme. Se não tem tanta simpatia como o pequeno BB-8, de O Despertar da Força, é talvez o mais humano de todos os androides retratados na franquia, sendo um bom alívio cômico para a trama.

O terceiro ato do filme é simplesmente de tirar o fôlego. Não se envergonhe se sentir vontade de gritar no meio da sessão. Quando o filme acabar e as luzes acenderem, você verá que todos estarão com a mesma vontade. A últimas duas cenas, em especial, farão arrepiar os pelos mais íntimos dos fãs que se prezam.

Quando se pensa em Star Wars, automaticamente vem à cabeça a maravilhosa trilha sonora criada pelo gênio John Williams. O encarregado da trilha de Rogue One foi o vencedor do Oscar Michael Giacchino, que conseguiu criar uma nova trilha se aproveitando e revitalizando a obra de John Williams.

O fato do filme ter sofrido um processo de refilmagens deixou alguns fãs com o pé atrás, talvez pela lembrança do que aconteceu com Esquadrão Suicida, que passou pelo mesmo processo e  foi lançado como uma verdadeira colcha de retalhos. Para nossa sorte, o mesmo não acontece aqui. A edição final do filme ficou redondinha, e só se percebe que o longa passou por refilmagens pela ausência de algumas cenas presente nos trailers.

Apesar do filme ter estreado nessa quinta-feira (15 de dezembro), o longa já gera discussões e polêmicas por conta de alguns fãs mais precipitados espalhando pelas redes sociais que Rogue One é o melhor filme da franquia. Besteira, não é para tanto. Apesar de, talvez, ser o filme mais empolgante para os fãs, Rogue One é apenas um derivado de um mundo criado  com muita destreza e ousadia por George Lucas. Portanto, o seu valor histórico jamais será comparável aos filmes da trilogia original.

No fim, Rogue One é um filme que não tem vergonha de se mostrar um belíssimo presente para os fãs. Quem não conhece a franquia provavelmente sentirá a falta de personagens mais marcantes, mas talvez sinta-se motivado a assistir todos os filmes da saga e a mergulhar nesse mundo. Já os fãs talvez tenham que deixar uma ambulância a postos na saída do cinema.

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Rogue One: Uma História Star Wars/ Disney Studios

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