Paraíso Negro

Além daquela colina, existia um jardim secreto.

O lugar era preenchido por um gramado verde vivo e por flores de todos os tipos.

Ao atravessar o grande portão que protegia o local, fui até o centro do jardim e me deparei com uma árvore com maçãs vermelhas e rechonchudas. Movido pelo desejo, retirei um fruto do galho e dei uma mordida. O sulco doce escorreu pela minha boca e pingou na grama fresca. O sabor era ótimo e fazia-me querer mais e mais.

Olhei para o alto e contemplei um céu azul, sem nenhum vestígio de nuvens. O sol radiava brilhante nas alturas, enquanto pássaros voavam livremente pela imensidão. Num rompante, a minha visão escureceu e eu caí no gramado, com os braços estirados para os lados. Um devaneio invadiu a minha mente e me fez pensar sobre o que acontecia além daquele jardim. Eu estava contemplando o doce sabor do paraíso, mas as coisas não pareciam estar certas do outro lado. Eu contemplei um mundo negro, feito de um breu antagônico. Eu vi desespero e desesperança. Eu vi a dor e o sofrimento. Eu vi a mentira e a traição.

Eu me dei conta de uma pobre garota, que chorava ao canto, com o seu coração despedaçado. Na sua mente, passava o mais obscuro dos pensamentos. Tocado, me aproximei dela e aconcheguei a sua cabeça sobre o meu peito.

Continuei caminhando e observando…

Passei por um pequeno vilarejo, com casinhas humildes e desgastadas. Naquela região, pessoas imploravam por alimento, enquanto seus estômagos suplicavam por um grão de arroz. A pobreza era nítida em meio à massa poluente.

Sem perceber, fui teletransportado para um beco escuro, onde jovens fumavam e se drogavam. Eles tinham prazer em utilizar aquelas substâncias químicas e os seus rostos já apresentavam vestígios de deterioração.

Andando por uma protuberância, fui parar em um cômodo fechado, com homens embriagados e uma mulher dançando sensualmente sobre uma barra de ferro. Animados, os homens jogavam dinheiro pra ela, enquanto a dançarina jogava cada nota sobre o corpo seminu. A dança se desenrolava com maestria e o público ia ao delírio. Como um incenso suave, o cheiro do prazer da carne e da prostituição invadia o local.

Eu me sentia mal em ver aquilo. Parecia um pesadelo sem fim, mas era real. De um lado, o mundo parecia bonito e colorido. Do outro, um lugar apagado em tons de cinza. Naquele jardim florido, as pessoas não tinham conhecimento do que se passava na outra extremidade. Mas aquele doce fruto da maçã, que escorria pela boca, era o suficiente para tirar a inocência de um mundo belo.

O paraíso só pertencia aos prósperos, enquanto o tártaro era o lar dos desafortunados.

Foto: divulgalção
Foto: divulgalção

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