Aquarius e o atual contexto político do Brasil – Entrevista

A entrevista é com o crítico de cinema Celso Sabadin. Ele é jornalista, publicitário, roteirista, curador e professor.  É autor dos livros “Vocês Ainda Não Ouviram Nada – A Barulhenta História do Cinema Mudo”, “Éramos Apenas Paulistas” e “O Cinema como Ofício”. Dirigiu o Doc. Mazzaropi e é sócio-fundador da Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Além de sócio proprietário do Planeta Tela Espaço Cultural, onde ministra cursos de cinema.

Opa – No futuro, alunos assistirão a Aquarius nas aulas sobre o processo histórico do impeachment de Dilma Roussef?

Celso Sabadin – Bom, do jeito que a coisa anda, não sei dizer nem se no futuro haverá alunos e professores ou se seremos todos privatizados e nos tornaremos apenas consumidores a serviço do mercado. Mas, de qualquer jeito, é inegável que o filme ficou marcado, talvez não diretamente, ao processo de impeachment de uma forma particular, mas, sim, ao momento político de uma forma geral. É um filme sobre resistência e manutenção de valores e, certamente, isso tem muito a ver com o momento histórico. Na verdade, todos os filmes devem ser estudados dentro de seu contexto histórico e “Aquarius” é um filme onde esta obrigatoriedade se potencializa.

Opa- A relação estética e política do filme é realmente um reflexo do momento vivido no Brasil em 2016?

Sabadin- Talvez não diretamente 2016, mesmo porque o roteiro do filme foi pensado antes, mas, sim, a este Brasil que ainda insiste heroicamente em fazer valer os seus valores mais profundos, suas raízes históricas e culturais, em não sucumbir às meras pressões comerciais, um Brasil que ainda vai em busca daquilo que acha importante. Certamente, é um Brasil minoritário, mas é importante.

Opa – O protesto, em Cannes, gerou um sucesso desproporcional ao que o filme merecia por seus méritos técnicos?

Sabadin – O filme foi visto por 300 mil pessoas. O Brasil tem 200 milhões de habitantes. Ele não é o que possa ser considerado um sucesso. Infelizmente. Talvez ele tenha gerado mais mídia e mais polêmica que propriamente ingressos vendidos. Mesmo porque, hoje tudo vira mídia e polêmica.  Só lamento que ele tenha virado este fla-flu, ou seja, com muita gente que não viu e não gostou só por causa do protesto em Cannes. E, da mesma maneira, de muita gente que não viu e já gostou também só por causa do protesto. Isso é emburrecedor. E quem não viu perdeu um belíssimo filme, independentemente de sua posição política.

Opa – Você acredita que o filme foi prejudicado por seu protesto? Como, por exemplo, pela não inclusão na disputa do Oscar?

Sabadin – Sim, sem dúvida, pois a comissão do Oscar deste ano foi formada por uma Secretaria do Áudio Visual sintonizada com o governo golpista e, consequentemente, ilegítima. Foi uma comissão igualmente ilegítima. Não sei se Aquarius merece o Oscar; mas sei que o Oscar não merece Aquarius. O filme é muito mais importante que aquele clubinho hollywoodiano que distribui todos os anos uma premiação meramente mercadológica, especulativa e conservadora.

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