Contos de família

Domingo já não tem mais o mesmo afeto, já não possui mais o mesmo cheiro e toque depois de que você partiu.

Domingo sempre foi o meu dia preferido. Desde muito pequeno, ele simboliza o dia de visitar e reunir família e amigos. Lembro de acordar cedo e dizer para meus pais: “vamos lá em baixo hoje?” – em alusão a grande decida que percorríamos até chegar à casa dela.

Local de reencontro familiar e de matar a saudade de uma semana inteira, sua casa era especial. Tinha – e ainda tem – um poder muito forte para cada um. A primeira coisa que eu fazia quando chegava era procurá-la em algum canto da casa para pedir: “bença vó” – se fosse pela manhã estaria deitada na sala, aconchegada no sofá menor, embrulhada na sua manta cinza assistindo TV, ou fazendo um café na cozinha; se fosse à tarde, estaria sentada em sua cama folheando a bíblia ou rezando o terço.

Chega a ser engraçado, mas seus traços eram caricatos. Uma velhinha baixinha, cerca de 1,50m, cabelo grande e grisalho formando um coque – foram poucas as vezes que vi seu cabelo solto -, óculos e brincos pequenos. Sempre com uma de suas blusas de lã, saia, meia e chinelo – seu uniforme de vó. Poderia estar o sol do Piauí, sua terra natal, mas certamente suas mãos estariam geladas. Não gostava de tirar fotos, principalmente se a gente gritava “dá um sorriso”, nesse momento ela murmurava “não consigo”, mas no mesmo instante, já esboçava um pequeno sorriso.

Lembro dos cafés da tarde nos domingo. Eu e meus primos ficávamos sentados nas cadeiras à espreita, apenas esperando os bolos e roscas quentinhos, que certamente ela prepararia para nos agradar. Nesse meio tempo, a gente beliscava as bolachas sequilhinhos que ela distribuía para cada um – sabe aquela bolacha que tem em casa e você nunca come, mas quando você chega no lugar vai correndo procurar para comer? Em minha defesa não sou o único a fazer esse relato. Nesse meio tempo olhávamos seus dedos gordinhos amassarem a massa de polvilho, leite, óleo e ovo, que quebrava de um a um, pausadamente para não passar o ponto. Olhar essa cena era quase igual ver um artista criando uma obra, de forma tão simples e tão compassada, fazia o processo com maestria, e para fazer seu famoso torresmo à pururuca então? Atenção redobrada! Modéstia à parte, o melhor que já comi. Quando bolos saiam do forno, cada um pegava seu pedaço, e ai daqueles que não comessem nada que ela tinha feito, certamente iria escutar um “iiihh não vai pegar por que? tá com nojo da vó?” e até explicar que estava de bucho cheio já tinha levado sermão.

Os domingos de dia das mães já não serão os mesmos. Comemorávamos com ela, uma tradição que colocamos com o passar dos anos. Nossa família poderia trocar o nome “dia das mães” e colocar “dia do muito”. Era dia de ter tudo muito. Muita comida. Muito filho. Muito neto. Muito amor envolvido.

Os natais também eram dias de reencontro, sempre comemorados em família, tradição que vamos manter mesmo depois de sua partida. Todos eles remetem a ótimas lembranças, mas nenhum é melhor aqueles de domingo, onde certamente todos estariam reunidos bem cedo para aproveitar cada segundo com ela.

Nenhum dia dois de Julho foi, ou será melhor àquele que estávamos todos a volta dela, preparando uma festa surpresa. De forma descarada montamos tudo sem contar o real motivo da festa. A desculpa? Festa Julina! A desculpa veio mesmo a calhar, ela não desconfiou de nada – ou a gente achava que não -, até mesmo a dança de quadrilha mais torta que já vi auxiliou no processo –  com direto a casamento, padre, pai de noiva furioso e muita música. Na hora que o bolo foi colocado na mesa, gritaram com entusiasmo: “esse bolo é seu, essa festa é sua vó”, ela olhou com aqueles olhos apertados e disse “é mesmo? que bom” –  com aquela semblante que já sabia de tudo, mas não ia estragar a surpresa de ser surpreendida. No dia seguinte, domingo, ouvimos ela dizer mais de uma vez “foi o dia mais feliz da minha vida” e, sem saber, fez aquele o domingo mais feliz de nossas vidas.

Na semana que partiu – mesmo antes de ir para nunca mais voltar -, o clima estava triste, chuvoso e nublado, assim como nossos corações ficaram depois da notícia de sua ida, mas foi no domingo que o sol voltou a raiar, e nesse momento sabíamos que era ela iluminando nosso dia, trazendo luz aos nossos caminhos e nos inspirando a fazer todos os domingos, os melhores de nossas vidas.

Foto: Matheus Ferreira

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s