O parto domiciliar e suas questões

No país em que as cesáreas representam quase 85% dos partos da rede privada de hospitais – muito acima dos 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde –, uma minoria de gestantes foge à regra e faz questão de dar à luz os seus filhos da maneira mais natural possível, em suas próprias casas, no chamado parto domiciliar. Apenas 5% das mulheres tiveram partos sem intervenções, segundo a pesquisa Nascer no Brasil, coordenada e divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em conjunto com diversas instituições científicas do Brasil.

Outrora comum, esse tipo de parto foi sendo deixado de lado nas últimas décadas até ser quase extinto. Hoje, as doulas, profissionais que auxiliam às gestantes antes, durante e depois do parto, lutam para mudar essa realidade. “A principal diferença do início do século passado para cá é que o parto passou a ser visto como um evento médico. E na verdade deveria ser encarado como um fato fisiológico, natural”, argumenta Ana Maria Lambert, doula e fisioterapeuta especializada em saúde da mulher.

Esse evento natural se traduz na vontade de parir num ambiente familiar e acolhedor, diferente do hospitalar, muitas vezes intimidador e inóspito. “Optei por ter filho em casa pela autonomia na decisão sobre as intervenções médicas, pelo respeito ao processo fisiológico do parto e por me sentir mais segura no aconchego do lar do que em um hospital”, diz Elisa Manfrin.

Entre os benefícios do parto em casa relatados pelas doulas e mães estão a liberdade da gestante fazer o que quiser durante o trabalho de parto – como caminhar, deitar na cama, tomar um banho – e o fato do bebê ir direto para o seu colo após o nascimento.

“Meus desejos em relação ao parto foram atendidos, bem como a escolha da posição. Meu bebê não foi submetido a procedimentos desnecessários e não foi separado de mim após o nascimento e pôde mamar na primeira hora de vida”, conta Elisa.

Violência no parto

O medo de uma eventual violência obstétrica também pesa na hora da escolha pelo parto humanizado. No Brasil, uma em cada quatro mulheres afirma ter sofrido maus-tratos no parto, segundo a pesquisa Nascer no Brasil. Além disso, a mulher que deseja ter o filho em casa sofre uma pressão enorme da sociedade. É comum amigos e parentes próximos às gestantes desencorajarem o parto natural, como aconteceu com Stephanie Gonçalves. “Fui desanimada pelo obstetra com quem fiz acompanhamento, por colegas de trabalho que me consideravam louca por querer um parto sem médicos ou medicação. E até por amigas que achavam absurdo o parto não ser convencional, em um hospital com médico”, conta Stephanie.

Além do preconceito, não há um consenso entre os médicos sobre a segurança do parto domiciliar. O Conselho Federal de Medicina inclusive desaprova o parto domiciliar.  Alguns obstetras alegam que em caso de intercorrência durante o parto, a gestante não terá em seu domicílio a estrutura completa de um hospital, colocando em risco a saúde da mulher e a do bebê.

Na opinião da doula Ana Maria, o parto domiciliar é seguro, desde que a parturiente seja assistida por uma equipe profissional competente, que pode ser composta por doulas, enfermeiras, obstetras e parteiras – sim, elas ainda existem! “As intercorrências do trabalho de parto dificilmente acontecem abruptamente e sendo a gestante bem assistida, há tempo hábil para uma transferência até um hospital”, argumenta.

A escolha pelo parto domiciliar necessita de uma boa avaliação e a gestante deve levar em conta diversos fatores como estar em boas condições de saúde, ter uma gestação de baixo risco e consultar mais de um profissional da área. “A gestante precisa obter destes profissionais o maior número de informações, saber do risco e do benefício de cada escolha, buscar a opinião de mulheres que já passaram por esta experiência e ter o apoio de um plano B”, explica Ana Maria.

Quando questionadas sobre o porquê do parto domiciliar ainda ser visto com receio pela grande maioria das gestantes, doulas e mães apontam para a falta de informação e a confiança na figura do médico e do hospital. “As pessoas não sabem mais do que seu corpo é capaz e delegam à medicina seus medos e anseios. Ou seja, não conhecem o funcionamento do o próprio corpo”, opina Ana Maria. Já Elisa acredita que a cultura do medo do parto também contribui diretamente para esse cenário. “Há muita disseminação da dor e das possíveis complicações, sem que esses receios sejam combatidos com informações de qualidade sobre segurança do parto domiciliar”, finaliza.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

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